A pior de todas as guerras
Talvez você esteja sabendo do que se passa na vizinha Bolívia. Há duas semanas se aguçou o conflito entre grupos oligárquicos da chamada Media Luna, os quatro Estados do Leste, Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando, e o governo de Evo Morales. Adeptos desses grupos tomaram prédios de órgãos estatais e nos confrontos já ocorreram mortos e feridos. Ou seja, morreu gente.
Muita gente morre diariamente. Crianças, jovens, velhos. Destes, muitos morrem porque faz parte da nossa vida morrermos quando nosso corpo chega ao seu limite. É natural. Faz parte da nossa e da natureza de todos os seres, pois nascemos e morreremos um dia. Mas… quando crianças, jovens e adultos morrem antes da hora, aí já não é mais tão natural assim, não.
Morreram pessoas nos conflitos da Bolívia. Se foram 8 ou mais não importa tanto, pois o valor de uma vida não se mede só por sua “quantidade”, mas pelo que representa em si, na sua essência. Cada morte desnatural é uma morte que contraria a nossa natureza, a nossa razão de ser. E os bolivianos mortos tinham um nome, um rosto, uma família. Tinham sonhos e ideais. Eles não queriam morrer agora.
Lamento a morte deles e fico triste. Como lamento as causas que estão provocando os conflitos na Bolívia e as mortes e a tristeza de nossas irmãs e de nossos irmãos bolivianos. Um conflito, aliás, que não difere de tantos outros que acontecem diariamente, em todo mundo. Um conflito, que para mim é o pior de todos, é a guerra que alguns grupos estão travando, intensa e friamente, contra a Vida!
Toda guerra é horrível. Toda guerra é abominável. Mas as guerras existem, não há como negá-las. E hoje chegamos a um ponto, no qual estamos realmente travando uma guerra contra a Vida. Pois além de todas as injustiças cometidas contra vários grupos sociais, pratica-se uma prolongada e dura guerra contra a natureza. E como tal, também contra a base de nossa existência. Assim sendo, lutamos contra nós mesmos.
Quantos milhões de crianças ainda deverão morrer por desnutrição e por falta de condições higiênicas? Quantas pessoas ainda deverão morrer por depressão, por tentarem ser felizes e não encontrarm outro caminho a não ser o da bebida e das drogas? Quanta gente ainda terá de morrer como vítima da ganância de empresários, banqueiros e de seus aliados políticos?
Sim, estamos travando a pior de todas as guerras. A guerra contra a Vida! Contra nós mesmos! E parece que os sinais das mudanças climáticas ainda não bastam para nos alertar de que é preciso mudar nosso sistema de vida. A destruição do solo e a contaminação dos recursos hídricos ainda não bastam. Não vemos que com isso estamos reduzindo a vida das gerações futuras e até impedindo que vivam digna e naturalmente?
E o que falar dos milhões de animais que são sacrificados para satisfazer falsas necessidades alimentícias? Das matas destruídas para a produção de ração ou de combustível? – Acho que nem é preciso desfiar os rosários de horrores cometidos pela sociedade do consumo coercivo, não? – Coercivo? Sim! – Ou você é obrigado a agir assim como está agindo? E você nada tem a ver com a morte de nossos irmãos bolivianos?
Aliás, por que estão ocorrendo esses conflitos na Bolívia? Por que travamos esta pior de todas as guerras contra a vida? Você já refletiu sobre isso? Não? Então vou lhe dar umas pistas… É que não somos realmente os ditos seres inteligentes, como muitos pensam, não. Somos apenas seres incompletos a caminho de nossa realização. Mais nada. E neste caminhar, precisamos satisfazer a muitas necessidades.
Há umas necessidades básicas, como subsistência, proteção e afeição. Elas também são chamadas de primárias, porque são imprescindíveis. E ainda há as necessidades sociais ou imateriais, como o entendimento ou comunicação, a participação ou direitos e responsabilidades, o ócio ou a diversão, a criação ou as habilidades, a identidade ou os grupos de referência e seus valores, e… a liberdade!
Liberdade? Exatamente! É uma necessidade nossa, o ser livre, e por meio dela também podemos escolher a forma, o jeito de satisfazermos nossas necessidades. Ou seja, podemos escolher a nossa maneira de se alimentar, proteger, se desenvolver e procriar. Podemos definir a nossa “cultura”! – E qual é a nossa cultura atual? Nela cultivamos os valores que respeitam e fomentam a vida? Ou os hábitos que aceleram a morte?
Vivemos uma cultura de paz e de respeito por todos os seres? Inclusive de grande amor e respeito pela vida das gerações futuras? Ou será que a nossa cultura, o nosso sistema capitalista neoliberal global não está promovendo a pior de todas as guerras? A guerra de todos contra todos e sobretudo contra a Vida? – E você? Qual é a sua forma de se relacionar com a vida? – Qual é a sua cultura?
Somos seres incompletos à procura das partes que nos faltam para nos realizarmos, para nos re-ligarmos a todos e a tudo. Para nos sentirmos felizes. E podemos optar por diversas formas para completar o que nos falta. Nisso, sejamos inteligentes e procuremos formas de vida e de convivência que não destruam mais do que já se destruiu até agora. Isso é super-importante! Inclusive para a nossa sobrevivência!
O conflito, não o armado como ocorre na Bolívia, é um sintoma positivo da democracia. Aliás, suspeite sempre da unanimidade nas idéias ou numa discussão. A disputa e a briga são necessárias porque fazem parte de nossa natureza incompleta. A morte desnatural e as guerras armadas não! E quando tudo está aparentemente bonitinho, quando a palavra de um é a palavra de todos… adeus democracia!
Ajude a solucionar os conflitos que lhe aparecem pelo caminho. Em casa, na escola, no trabalho. Todo conflito tem solução! E sempre é melhor prevenir do que remediar, claro! Prevenir pelo diálogo, pela informação, pelo saber do que se passa e suas causas. Assim pode-se chegar a consensos. Assim pode-se promover o bem-estar e a felicidade de todos, uma responsabilidade básica de toda pessoa adulta, madura.
Lembre-se: nós somos o que pensamos. Nossos pensamentos influem de maneira determinante nas nossas emoções e ações. A violência, a briga, o desrespeito e o desamor se aprendem desde pequeno! Seu aprendizado se dá na familia, na escola, nos meios de comunicação, na publicidade. O pacifismo, a solução equitativa de conflitos, o amor e o respeito também podem ser aprendidos. E não somos eternos aprendizes?
Se quiser ler mais sobre a situação na Bolívia: http://www.bolpress.com/art.php?Cod=2008091212
