Alegria, alegria

Arno Rochol
junho 11, 2009, 2:29 pm

Rir, diz a sabedoria popular, é o melhor remédio, E Jonathan Swift, autor de Viagens de Gulliver, escreveu que: “Os melhores médicos são a doutora Dieta, o doutor Descanso e a doutora Alegria”. Infelizmente ele próprio não seguiu muito o seu conselho, pois, lutando sempre pela liberdade, acabou morrendo louco. E, ao que parece, infelizmente não foi por ser louco de alegre, não.

Quem acompanha as crônicas que escrevo para o sítio Gruga pode pensar que sou uma pessoa chata e triste por tratar, muitas vezes, temas nada alegres. Mas não sou isso, não. Gosto de rir e de me alegrar sempre que posso. E até rio bastante e alto. Me faz muito bem. Bem de acordo com outro dito, do suíço Hubert Schleichert: “Quem ri sobre uma coisa não tem mais medo dela”.

Sei muito bem que vivemos numa época crítica. E sei da responsabilidade que cada um/a de nós tem em relação ao presente e ao futuro. Mas não tenho medo dessa realidade, porque também a vejo com humor. Charles Chaplin, que sofreu muito quando criança e jovem, nos deixou seu testemunho e esta frase: “O humor impede que a maldade da vida nos subjugue completa e totalmente”.

Basta observar a natureza para deduzir que todo o universo foi feito por prazer e que o fim de todo ser vivo é a alegria. O encanto de uma flor, o segredo das árvores, o ritmo dos dias e meses, a beleza da aurora e do crepúsculo… Até as tempestades e furacões revelam toda a nossa fragilidade, desfazendo as couraças e fortalezas que criamos em nossos momentos de tola seriedade.

Por fazer parte de nossa essência, o humor desempenha um papel importante em nossa existência. Tanto da nossa vida interior, como da exterior, inclusive social. Mas não se trata do humor cínico ou sarcástico, de mau gosto e ofensivo. O humor em questão é o que nasce de uma atitude positiva e afirmativa diante da vida, permitindo que enfrentemos e superemos situações críticas e até perigosas.

Sigmund Freud foi um dos primeiros a descobrir o valor terapêutico do riso como estratégia ideal contra ofensas, ultrajes e outros agravos. Em 1905 escreveu: „A piada e sua relação com o inconsciente”, e em 1927, “O humor”. Há uns 20 anos, a psicologia criou até uma disciplina própria, a gelotologia, do grego γελὸς – riso. Ela estuda o potencial terapêutico do riso e do humor.

Mas, afinal, o que é mesmo humor? No Aurelião se lê, entre outras coisas, que é uma “disposição de espírito”, e “capacidade de perceber, apreciar ou expressar o que é cômico ou divertido”. Estudiosos dizem que existe um humor ativo e um passivo. Neste, o realce é para o gostar de situações e histórias divertidas. Naquele, é quando uma pessoa cria situações de humor.

A atuação e importância do humor podem ser observados em diversas áreas. O psicólogo Thomas Holtbernd descreve o efeito do humor em três níveis: emocional, cognitivo e comunicacional. Na área emocional, o humor libera inibições, reativa emoções reprimidas e fomenta a expressão espontânea de emoções. Ele nos torna abertos, livres, acessíveis e descontraídos.

Na área cognitiva, o humor anima a criatividade, ativa processos de decisão, possibilita uma mudança de perspectiva e amplia o espectro das alternativas de pensar e de atuação. Na área comunicacional, o humor consolida relações, pelo menos termporariamente, fomenta o clima de eqüidade, enquanto não for às custas de outros, e reduz as resistências, por sua tendência relaxante.

Muitas pesquisas comprovam os efeitos do humor como relaxante de tensões, redutor de estresse e na resolução de conflitos. Está provado que rir, por exemplo, ajuda a digestão, fomenta o sono relaxante, melhora e estabiliza o sistema imunológico, a pressão arterial e é antiinflamatório. A ciência moderna comprovou, portanto e de fato, a velha sabedoria popular de que “rir é o melhor remédio”.

Se o humor é sadio, faz bem ao corpo e à psique, imagine, agora, o que significa a falta dele! Sabe-se que na antiguidade cultivavam-se várias formas de humor. Com o advento do cristianismo, porém, instituiu-se o reinado da seriedade, ou seja, do mau humor. Durante séculos considerou-se o rir, sobretudo o rir alto, como vil, indigno, perverso e até pecaminoso.

Vários doutores da igreja, como São João Crisóstomo, condenavam o riso e Clemente da Alexandria queria até que os humoristas fossem expulsos da comunidade eclesial. Quase todas as obras teológicas dos autores cristãos caracterizam-se por uma total falta de humor. Nos regulamentos monásticos da Idade Media condenava-se e proibia-se o riso por diversas razões.

O Papa Pio V, 1504-1572, assinou um decreto contra o “riso imoderado”. Inácio de Loiola, fundador da Sociedade de Jesus, admoestava quase na mesma época: “Não ria e não diga nada que provoque risos”. Esses inimigos do humor argumentavam, entre outras coisas, que segundo os evangelhos, Jesus nunca teria rido. E que nesse “vale de lágrimas”, seria a época de chorar. Rir, só no céu!

As igrejas protestantes, sobretudo o calvinismo e o zwinglianismo, combateram duramente até as formas mais inocentes de diversão. Uma consequência lógica para elas, depois de já tentar controlar as necessidades biológicas como comer, dormir e a sexualidade. Afinal, desfrutar o humor e rir livremente são características de sociedades descontraídas e abertas. Bem o contrário delas!

Deve ser por isso que o humorista alemão Matthias Richling sugeriu ao cristianismo um 11º mandamento: “Tu deves rir”. Uma receita boa para essa época egocêntrica e sarcástica, pois com humor podemos criar pontes. O cômico Victor Borge disse: “Rir é o contato mais direto entre duas pessoas”. E Charles Dickens complementou: “Nada é mais contagiante neste mundo do que o riso e o bom humor”.

Humor, portanto, é um dos remédios mais eficazes para vários males, sobretudo quando praticado com empatia e bondade. Pessoas de bom humor têm um astral positivo, são mais auto-confiantes e conseguem empregar melhor suas energias. E encontram mais fácil caminhos e soluções para os problemas que enfrentam. Saber rir e ter humor é a forma ideal de ser de quem ama o nosso mundo e zela por ele.

Para terminar, uma piada da internet: – O que está fazendo ajoelhado aí, Joãozinho?
- Rezando para que o rio Amazonas passe pela Bahia, mãe.
- Mas porquê, filho?
- Porque foi isso que escrevi hoje numa prova!

Palavras-chave: Felicidade, Satisfação

Veja ainda:

  • Meu Vizinho Morto
  • Cegos & Zarolhos
  • Banana, Banana & Circo
  • Carnívoros & Flexitarianos
  • O Tremzão da Alegria II
  • A Grande Família
  • BBM – Big Brother Mundo
  • Como se Chamará a Nossa Era?
  • O Tremzão da Alegria
  • Luto Por Um Gato
  • Caqui a 89 Centavos. Manga Também
  • Eunucos Virtuais, ou Eros x Clerus
  • Turistas Conferenciais
  • A Fita Branca & Autodeterminação
  • Não Pude Suportar
  • Fim da Linha
  • Agiotas, Velhacos e Insubmissos
  • Dia Mundial do Vegetarismo & Semana Vegetariana Mundial
  • Os Egos contra o Nós
  • A Face Esvaecida de Gaia
  • « Older PostsNewer Posts »