Jardineiras de Almas

Arno Rochol
maio 26, 2009, 8:30 am

Na Alemanha se criou, há anos, uma pré-escola,  o kindergarten, cujo modelo acabou se espalhando por outras partes do mundo. Inclusive o próprio termo passou a fazer parte de outros idiomas. E a figura de linguagem, jardim de crianças, é realmente linda. Aí fico devaneando e lembrando quantas flores bonitas não há pelos kindergarten desse mundo afora!

Depois da unificação das duas Alemanhas, em outubro de 1990, o lado oriental se dobrou aos ditames do lado ocidental, assumindo praticamente todos os modelos da ex-RFA, a República Federal da Alemanha. Algumas poucas coisas, porém, a ex-RDA, República Democrática Alemã, também conseguiu “exportar” para o lado ocidental. Foram as kitas, as kindertagesstätten, ou seja: “locais onde se pode deixar as crianças por um dia”. As conhecidas creches.

Tudo isso, em parte, para dizer que o modelo kita acabou eliminando o tradicional kindergarten. Também do linguajar diário alemão. E tudo isso para comentar ainda, que desde sexta-feira passada 22, as e os funcionários dos kitas estão em greve em várias partes da Alemanha, complicando a vida de muitos pais. Estão em luta por melhores condições de trabalho e salariais.

Aliás, antigamente as profissionais dos kindergarten se chamavam de kindergärtnerin. No feminino mesmo, porque era um trabalho feito exclusivamente por mulheres.  Hoje, com os kitas, esses profissionais se chamam de educadores/as. As diferenças podem parecer simples nuanças, nada mais. Poderiam significar nada. Mas discordo. A mudança visibiliza algo, sim, e mais profundo.

Signos, como a palavra diz, são símbolos. Representam algo. Levam uma mensagem, uma informação. Signos são criados com intenções e têm diferentes origens e causas. Se chamo uma pré-escola de jardim e comparo as crianças a flores, uso uma linguagem poética, que, no mínimo, revela parte da minha maneira de ver o mundo e de como me situo nele.  

Quando uso o termo kita, local onde se guardam ou se deixam as crianças por um dia, já soa diferente, não é mesmo? E quando de-signo um profissional, quando lhe dou um signo de “jardineira/o de crianças” ou de “educador-a”, também busco objetivos distintos. Neste termo sinto uma certa “objetividade fria”. Naquele, um “toque de calor humano e de beleza”.

Saudosismo? Claro! E por que deveria negar estes sentimentos? É que ainda sonho com uma sociedade que seja um lindo parque e nele vejo vários canteiros com belíssimas flores. São nossos filhos crescendo ao sol e ao ar-livre, sob os cuidados de amorosas jardineiras. Ouve-se o cantar dos pássaros, que se misturam com os risos e gritos de nossas flores. A imagem me faz feliz.

Por outro lado, vejo carros circulando rápidos, com crianças sentadas em assentos anatômicos. Nos respaldos dos bancos já brilham monitores, que passam desenhos animados ou filmes de ação. Os pimpolhos são largados bem cedo nas kitas e apanhados à tarde, como encomendas. E sinto que ninguém quer frear o ritmo do seu “negócio”. Seja o dos pais, dos educadores, dos patrões ou empresários.

A par dessas considerações líricas e nostálgicas, chama-me atenção ainda o motivo da greve das/dos educadores dos kitas alemães: condições de trabalho insatisfatórias, justificadas por terem de sentar em cadeirinhas de crianças, e salários baixos, indignos. Fico pensando: a questão das cadeirinhas até que é fácil mudar. Mas… e os salários? – Como fica isso?

Aí, sinto muito! O tratamento que damos a nossos educadores é algo significativo para nossa época e seu sistema político-econômico. Veja: diretores de bancos e de empresas ganham fortunas. E eles cuidam do quê? Das nossas flores ou da grana de uma minoria? Cuidam do nosso futuro ou de um capital corrompido e sujo de sangue? E o que deveria ser mais importante para nós? Para uma sociedade preocupada com o seu futuro? Não há dúvida alguma: deveria ser a educação!

Papais ou mamães que ficam em casa cuidando de nossos filhos, jardineiras de nossas flores, educadoras, professoras e professores deveriam ter os melhores salários do mundo! São eles que cuidam do que de mais precioso temos! A nossa vida futura! A próxima geração! No entanto, o que vemos? O abandono e até o desprezo por nosso sistema educacional e por seus profissionais.

Nos simbólicos parques de nossos estados cultivamos o quê, hoje? Há canteiros de shoppings, de carrões, de produtos geneticamente manipulados, de soja para exportação, de criação industrializada de gado e aves, canteiros de terríveis e mortíferos armamentos, canteiros de dinheiro artificial e de ações estéreis a se perder de vista… Enublando nossos horizontes, entorpecendo nosso coração.

E agora?! Kindergarten já era… tudo bem. Também pode ser kita. Não há problema. Mas… abandonar esses tipos de jardins de vida para cultivar hortas da morte? Além de horrorosa, a troca é muito perigosa e uma péssima opção.

E você? O que acha? Ao refletir, não esqueça, por favor, de lembrar que não somos só meros objetos passivos desse e de outros câmbios! Neles, como em todos os processos sociais, nós podemos tanto ser jardineiras de almas, como agentes fúnebres. A escolha sempre é nossa.

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