Meu Vizinho Morto

Arno Rochol
agosto 5, 2010, 9:44 am

Julian Calek morreu entre 27 e 30 de Outubro de 2005 em seu apartamento, na cidade alemã de Stuttgart. Ali ele vivera seus 16 últimos anos. Só em fins de janeiro de 2007, 15 meses após sua morte, foi descoberto o seu cadáver. Ninguém havia sentido falta dele.

Em Edinburgo, na Escócia, o cadáver de uma senhora de 89 anos, morta em 2004, ficou 5 anos sem ser descoberto. Só foram descobri-lo, quando começou a vazar água de seu apartamento para o debaixo. Havia um monte de correspondência por detrás de sua porta.

Um caso mais chocante aconteceu na Frísia, Países Baixos. Em junho de 2010, descobriu-se o cadáver de um senhor de 50 anos, que ficou por 4 anos morto na casa da família. Ele vivia com duas irmãs e dois irmãos. Nenhum deles ligava pra ele. Nem mesmo morto.

Casos como estes ocorrem cada vez com mais freqüência. “Paris, França, janeiro de 2010 – homem morto ficou 3 anos desaparecido em seu apartamento. Gelsenkirchen, Alemanha, julho 2009: descoberto cadáver de homem que morreu há 4 anos e meio.”

Na cidade de Essen, Alemanha, deve ter ocorrido um recorde: o cadáver de um homem, que morreu aos 59 anos de idade, só foi descoberto 7 anos depois. Ele morava num bom edifício, num bairro nada pobre. Durante 7 anos ninguém sentiu a ausência dele!

O que está acontecendo com a nossa sociedade? Como podemos tolerar tais fatos? Ou, em outras palavras: será que ainda causa alguma reação em nós, quando lemos tais notícias? A não ser aquela costumeira busca por sensação, pela novidade exótica?

O que está acontecendo conosco? Como podem irmãos viver numa mesma casa e deixar um de seus membros durante 4 anos morto em sua cama? Sem se importar com nada, como se fosse a coisa mais corriqueira, banal, cotidiana e normal do mundo?

Acho que não precisamos ir muito longe para descobrir onde começa o processo dessa indiferença. Ele é imamente ao nosso sistema sócio-econômico, no qual predomina o individualismo e o egoísmo. No qual se despreza e avilta a união e o bem-estar coletivo.

Não gosto de “revirar” nestes temas, você pode crer! Mas não posso fazer de conta que eles não existem. Precisamos, por isso, primeiro reconhecê-los aberta e sinceramente. Depois, deveríamos buscar as suas causas para então poder, juntos, encontrar uma solução.

Mas não é isso que ocorre. E a indiferença segue a fazer vítimas e mais vítimas. Ninguém nos obriga a não ver os meninos de rua, os marginalizados, os esfomeados etc. Ninguém nos obriga a ver Xuxas, Anas Bragas, Faustões, Fantásticos, futebol e carnaval.

Ninguém nos obriga a não ver o crescente isolamento das pessoas, a desunião das famílias, a fuga gritante da realidade. Ninguém nos obriga a ver os injustos desfiles de moda, o que as estrelas e astros fazem na cama, nem o que os bilionários comem e bebem.

A única coisa a qual somos obrigados é morrer. Todo o resto é opção. E é minha opção. É sua opção. É nossa opção. Podemos optar por um mundo mais solidário ou mais solitário. Por um mundo mais justo ou mais injusto e sofrido. Por mais amor ou por mais ódio.

Comecemos por nós mesmos! Vivamos a justiça na nossa família. Tratemos a todos de igual modo. E se houver algum desentendimento, vamos resolvê-lo logo. Não é possível viver em paz consigo nem com os demais se houver um só foco de injustiça num grupo.

É que não existe, por mais que queiramos fazer de conta, meia-verdade, meia-justiça, meia-satisfação. Não haverá, jamais, bebidas nem drogas que poderão abafar um só foco de injustiça que estiver dentro de mim, pessoalmente, e dentro de nós, como sociedade.

Meu vizinho morto é a parte de mim que já matei, ou deixei morrer, calado, indiferente, acomodado. É a parte não resolvida, com justiça, dos desacertos e conflitos de nossa vida particular e social. Eles são naturais e requerem soluções naturais. Não silêncios sepulcrais!

Há quanto tempo você já não presta mais atenção ao seu vizinho? Tanto o físico, que mora ao seu lado, como o do seu interior? Ou será que você já deixou os seus vizinhos mortos há muitos anos? Espero que não. E se for o caso, ainda há tempo para reverter a situação.

Tentemos cultivar o que nos qualifica como pessoas: nosso ser carinhoso, bondoso, justo e solitário. Ligado ao terreno e ao infinito e eterno. Pois somos realmente parte de uma só família: a humana. E ela é formada por pessoas, pequenas famílias e… muitos vizinhos!

Se os nossos vizinhos já estiverem mortos, ressucitemo-los! Nunca é tarde para começarmos a viver plenamente. Com consciência e responsabilidade. Com paixão e eqüidade. Agindo assim nos sentimos bem vivos. Mesmo próximos da idade de dizer adeus.

Palavras-chave: Gruga.org

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