Cegos & Zarolhos
Hoje é sexta-feira, 23 de julho. Dia lindo aqui em Bonn. São umas 10 horas e deve estar fazendo uns 20 graus lá fora. Temperatura agradável. Céu azul, diáfano. Tudo isso só para dizer que estou de bem com a vida. Muito bem, até. Feliz, contente, com boa saúde.
Apesar disso, há uma coisa que me deixou pensativo, chateado e triste, nesta manhã. Foram as cartas que alguns leitores enviaram ao GA, General Anzeiger, diário de Bonn, comentando os honorários que um apresentador de tv alemão irá faturar em breve.
Para se entender melhor a questão, deve-se saber detalhes. Trata-se de Günther Jauch, 53, anos, dono de uma produtora de TV, que a partir do outono setentrional de 2011 vai trocar o canal comercial RTL por um de direito público, a ARD.
A ARD é financiada principalmente por meio de uma taxa que todo mundo tem de pagar na Alemanha, Atualmente é 5,76 € por rádio e 17,98 € por aparelho de tv = 23,74 € por mês. Com este dinheiro, mais publicidade, a rede de rádios e tevês – ARD – se sustenta.
A taxa é obrigatória! E a grande indignação dos leitores do jornal é que Günther Jauch vai faturar 10,5 milhões de euros para fazer 39 programas por temporada. O programa é no horário nobre de domingo à noite, a partir das 21h45, e deverá durar 90 minutos.
O pessoal, então, fez o cálculo de quanto custará um minuto do dito programa. Deu 4 mil e 487 euros e 18 centavos! E este é o motivo da raiva e da revolta de uma grande parte da população alemã e não só dos leitores do General Anzeiger de Bonn.
Uma leitora, por exemplo, comenta que um operário comum precisa trabalhar quatro meses pra ganhar o que o Jauch fatura num minuto. E que nesse caso não há mais uma relação justa. E pergunta: que consciência tem Jauch e a ARD em relação aos co-cidadãos?
Um outro inicia avisando que não é invejoso nem tem algo contra o Sr. Jauch. Mas lembra que uma assistente social, na Alemanha, ganha 8,50 € a hora. Com 40 horas por semana, ela recebe cerca de 1.360,00 € por mês. – O Sr. Jauch fatura 4.487,18 € por minuto!
O leitor comenta que sabe como se pagará a conta: aumentando a taxa de rádio e tv. É triste ver isso, acrescenta, porque dinheiro há suficiente. O que falta é justiça no seu uso. E conclui:Como se vai motivar o pessoal que trabalha como assistente social, sabendo disso?
Um outro escreve: “Um aposentado tem de viver um ano inteiro com o dinheiro que Jauch fatura em dois minutos!” E critica os horrendos salários que são pagos hoje aos “astros” da televisão. Apesar disso, os responsáveis justificam dizendo que os preços são “normais”.
Uma leitora comenta, que a maioria das pessoas, que paga a taxa de rádio e tevê, tem de viver com uma quarta parte – ao mês – do que Jauch ganha num minuto. – “Ao que parece, ninguém mais tem vergonha na cara”. E questiona: “O que está sucendo?”
É bem isso que me deixa chateado e muito triste também. E o problema não é só na Alemanha, não. É no mundo todo! Hoje, quem trabalha pelo bem-estar da sociedade, para satisfazer as nossas necessidades básicas, recebe salários ínfimos. Não é valorizado.
Quem trabalha para nos entreter, seja cinema, televisão ou esporte, recebe salários altíssimos. É “herói nacional”, “ídolo das multidões”. A relação está totalmente invertida. Há algo de muito errado nas nossas concepções sociais, políticas, econômicas e religiosas!
Essa relação – criminosa – é nosso grande impasse! De um lado há banqueiros, empresários, diretores de cinema, atores, jogadores, pilotos etc que faturam milhões. Por mês! (Sem falar nas prebendas dos políticos!) Do outro lado… nós já sabemos…
- Onde está a relação justa disso tudo com o bem-estar comum, que deveria ser a meta de nossas atividades?
Há uma disfunção enorme entre o pagamento pelas atividades indispensáveis à nossa sobrevivência com as que não são. E o câncer social, gerado por essa disfunção, já está causando muita dor. E ainda vai nos destruir completamente, se não o eliminarmos!
Como pode o capital gerar cada vez mais capital? E os geradores desses lucros só mexem com números e leis. Mais nada! Números irreais e leis injustas que geram e regulam injustiças! – E os políticos? – Coonestam o “jogo”. – E nós, eleitores? – A resposta é sua!
O atual sistema econômico gerou tais aberrações. O capitalismo virou um monstro indomável. Como no caso de Frankenstein, seus criadores perderam o controle sobre ele. E nós? Assistimos a tudo sentadinhos diante das tevês. Comportados. E consumindo sempre.
Claro que podemos fazer algo contra essa situação! No caso do Jauch, por exemplo, diria aos leitores alemães o seguinte: “Boicotem o programa dele”! Ou, criem um blog “Boicotem Günther Jauch“! Porque sempre há uma saída, pessoal e coletiva, quando se quer.
Quando morremos, gente, não levamos nada. Mas podemos deixar muita coisa! Sobretudo o exemplo de vida. Podemos, por exemplo, ajudar a construir uma sociedade mais justa vivendo em equilíbrio. E quem age assim, este, sim, deveria ser nosso ídolo, herói e modelo!
Não quem faz plástica, quem chuta uma bola ou suga os recursos públicos para deixar milhões na miséria. – Precisamos reequilibrar nossa sociedade! – E quero ver qual será o primeiro jogador, por exemplo, que dirá: – “Não quero ganhar tanto porque é injusto!”
Sonhar não é proibido. Nem com um outro mundo, mais justo. – Sonhar não é luxo. Nem com o exemplo de algum milionário que prescinda de suas exorbitantes fortunas. – Sonhar não é pecado. Nem com o exemplo de religiões ou seitas que vivam realmente a pobreza.
Sonhe! Ajude a viver um mundo mais justo! E comece por você!
