Banana, Banana & Circo

Arno Rochol
julho 10, 2010, 4:57 am

Hoje e amanhã serão jogadas as finas da Copa do Mundo da Fifa África do Sul 2010. Encerra-se a longa maratona de jogos, cujo começou foi… ainda lembra? Isso! Há um mês, no dia 11 de junho. E como você se sente agora? Ou: que gosto deixou o Mundial em você?

Eu me sinto cansado. Um tanto vazio. Sem grande vontade de ver mais futebol. Acho que a competição deixa muito a desejar em vários sentidos. O mais importante, para mim, é o fator sócio-político. Que papel representa um acontecimento como este na nossa vida pública?

Enorme! Não é à toa que políticos usam grandes acontecimentos esportivos para se projetar. E não é à toa que se usem mundiais, olimpíadas e outros eventos do gênero para nos “anestesiar”. Para que nos esqueçamos, por um tempo, do que se passa à nossa volta.

Deveríamos ser realistas. A prática do esporte é, sem dúvida, um importante fator social. Integra e dá prazer. E também representa saúde. Pessoal e pública! Mas passar horas diante de telões ou à frente da tv, bebendo e comendo, isso não é saudável, não.

Pior ainda é se incomodar. Ficar estressado. Brigar. Ou até matar, como ocorreu há dias, no Norte da Alemanha. Um alemão matou dois italianos, com tiros na cabeça, por brigarem a respeito do número de vezes que suas seleções haviam se sagrado campeãs.

Futebol é uma coisa boa, dá prazer jogá-lo e assisti-lo. Mas não deveria ocupar o papel, que hoje desempenha em nossa sociedade! De jeito nenhum! E como chegamos a isso? Pela velha e surrada tática política dos romanos: pão e circo. Hoje, banana, banana & circo!

Gente! Onde estão as praças esportivas para nós podermos jogar o que gostamos? Para nos mexermos, já que o sedentarismo nos ameaça? Para nos divertirmos em conjunto, ativamente? Você já imaginou o bem que isso nos iria fazer, pessoal e coletivamente?

Basta de sambódromos, autódromos, estádios e ginásios caríssimos para consumirmos esporte e carnaval! O número de obesos aumenta. Os problemas de saúde também. E mesmo que fiquemos mais velhos, mas qual é o preço que estamos pagando por isso?

No bairro onde cresci, em Porto Alegre, Chácara das Pedras, tínhamos bons campinhos para nos divertirmos. E como o fazíamos! A gurizada de hoje vai para onde? E os jovens? Os idosos? Vão para onde? Correr por uma pracinha, entre gases de escape?

Não há mais relação equilibrada – e justa – em nossas atividades. E o desequilíbrio já é tanto, que ameaça estourar a qualquer hora. Parece não ser mais possível segurar este espiral louco, criado por uma elite egocêntrica somente para nos dominar e extorquir.

Quero ver qual será o primeiro esportista que dirá basta aos salários horrendos. Não há relação entre os bilhões de uns e os centavos de outros! E o pior é que somos nós que pagamos esses salários. E poucos se dão conta disso e ainda aplaudem os sanguessugas.

É você e eu que pagamos cada tostãozinho que vai nesses enormes estádios, nos salários astronômicos dos jogadores, nessa parafernália técnica, nas equipes de cobertura da mídia etc. Cada centavozinho gasto nessas banalidades é você e eu, somos nós que pagamos!

Claro! Porque esse dinheiro todo, que financia tudo isso, não cai do céu, não! É dinheiro pago pelo nosso imposto, é dinheiro que você paga comprando os produtos das empresas que financiam o negócio. Ou seja: é o nosso dinheiro mesmo que paga tudo isso, gente!

É seu dinheiro que paga a Fifa, CBF e Globo! É nosso dinheiro que paga nossa passividade e indiferença! É nosso dinheiro que financia o grande desequilíbrio social existente! – Você já tentou ver este lado de uma copa do mundo ou de outras megas-competições?

Não sou inimigo de nada. Mas, gente! Precisamos voltar a nos concentrar no que realmente é importante! Nas nossas necessidades básicas: comida, água, ar… e futuro! É sobretudo isso que está em jogo. A vida de nossos filhos! E não o Mundial da África ou o de 2014!

Precisamos acordar para ver o que estão fazendo conosco! Estão nos explorando, estamos acabando com nosso mundo. Estão nos anestesiando, estamos morrendo e matando as gerações futuras. E deixamos que isso aconteça… Livre e espontâneamente?

Neste fim de semana, nas finais deste mundial, reflita um pouco sobre isso. E tente libertar-se da mentalidade do “pão e circo”, adotando uma nova. Acorde, por favor! Nunca será tarde enquanto ainda restar uma sementesinha de esperança.

Palavras-chave: Gruga.org

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