Carnívoros & Flexitarianos
A matéria de capa do semanário alemão Der Stern, de 27.5.10, Nº 22, saiu com a manchete: “Comei Menos Carne!”. No subtítulo vinha: “O que o consumo de (carne em) massa está provocando na Alemanha”. O artigo começava assim:
“O preço é barato, mas a carne é fraca. Todos os dias comemos carne de gado, frango e porco. Porque quase nada custam. À primeira vista. Na verdade o preço é enorme. Pessoas, animais e meio ambiente pagam caro por esta insaciabilidade. Está na hora de mudar.”
Mais de 50 bilhões de animais são abatidos anualmente em todo o mundo. Os rebanhos ocupam uma quarta parte dos continentes. De acordo com estudos, eles causam de 18 a 51 por cento das emissões responsáveis pelo efeito estufa. Bem mais do que as geradas pelos carros.
A produção de um quilo de carne consome 15 mil litros de água. Os dejetos dos animais contaminam o solo, rios, lagos e mares. Para alimentá-los, usa-se uma parafernália farmacêutico-química, derrubam-se florestas e cultivam-se monoculturas, inclusive geneticamente manipuladas.
Segundo um estudo norte-americano, o número global de obesos, um bilhão, já superou o de subnutridos, 800 milhões! E se o desenvolvimento continuar nesse ritmo, a produção mundial de carne irá dobrar até 2050, chegando a 465 milhões de toneladas por ano.
No Brasil, de acordo com lenvantamento feito pelo Ministério da Saúde e publicado no Estadão, “Quase metade dos brasileiros têm excesso de peso. (…) A proporção de pessoas nessa situação subiu de 42,7% para 46,6% entre 2006 e 2009.”
E tudo para quê? Para melhorar a qualidade de nossa alimentação? Ou para aumentar os lucros dos produtores e do agronegócio? – “De janeiro a maio deste ano as exportações do agronegócio sul-mato-grossense atingiram US$ 879.277.517, aumento de 50% comparado aos (…) do mesmo período de 2009.”
O consumo per capita de carnes nos EUA aumentou mais de 60% de 1909 a 2008. Dos três tipos de carne, bovina, suína e de frango, foi o consumo per capita da carne de frango que mais aumentou: 540% em 100 anos!
Hoje, os norte-americanos consomem, num só dia, tanta carne de frango quanto consumiam num mês na década de 30 do século passado! O Brasil é o 4º maior consumidor de frango per capita. O maior é o Kuwait, com 72,5 kg por pessoa/ano. Na Índia, é só 2,2 kg por pessoa/ano!
Segundo a Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, “29% das 3.130 amostras de 20 alimentos apresentaram irregularidades, como ingredientes ativos não autorizados e resíduos de agrotóxicos acima do permitido”.
A discussão global sobre o tema já gerou até uma nova espécie de consumidor, o flexitariano. Trata-se de um eufemismo para descrever vegetarianos ocasionais, ou seja, inconsequentes. Evitam consumir peixe e carne, mas de vez em quando não resistem.
Na Alemanha, segundo a revista Stern, 1,6 % da população é vegetariana. São 1,3 milhões dos cerca de 82 milhões de habitantes. Em 2009, os 80,7 milhões de “carnívoros” consumiram 39 quilos de carne suína por pessoa, 11 quilos de frango e quase 9 quilos de carne bovina. Isso dá, sem osso, 162 gramas por pessoa/a. Bebês e idosos incluídos.
Os alemães consomem tanta carne porque é barata. Em 1960, eles tinham de trabalhar 2 horas e 37 minutos para comprar um quilo de bife de porco. Hoje, só meia hora. Um quilo de frango, há 50 anos, lhes custava duas horas e 13 minutos de suor. Hoje, só 13 minutos.
A Alemanha sempre foi famosa por seus carros, suas salsichas e frios. Mas enquanto a indústria automobilística mantém um alto padrão tecnológico, a carne produzida no país, segundo a Stern, é de baixíssima qualidade. As causas são óbvias.
Até 1960, os colonos alemães criavam seus animais “naturalmente”, visando a qualidade do produto. Hoje, na produção moderna de carne, “idealizada” nos EUA, os bichos tornaram-se puros objetos de engorda.
De 100 animais consumidos no país, 99 não viveram. Foram engordados! Um pinto industrializado aumenta 30 vezes o peso do seu corpo em 4 semanas. (Se um ser humano fosse alimentado do mesmo jeito, aos três anos já estaria pesando 90 quilos!)
Um porco de 90 quilos, pela lei alemã, precisa dispor de tão somente 75 por 100 centímetros de espaço para “viver”. Os frangos sofrem ainda mais: só lhes cabe o equivalente à meia folha A4. Se as pessoas vissem como são criados e abatidos os animais, perderiam o apetite.
Nessas prisões de engorda, os bichos não atingem seu peso ideal sem fármacos. Na terra da “bratwurst”, eles “consomem” o dobro de antibióticos que a própria população. E a maioria dos “carnívoros” teutônicos já é imune – “naturalmente” – aos antibióticos.
A questão não se reduz, é claro, só à Alemanha. Trata-se de um fenômeno global. Por isso, quem tem um pouco de amor-próprio deveria reavaliar seu consumo de carne. Mais ainda, quem tiver conscientização ecológica. Mas o ideal mesmo é fazê-lo por respeito à vida dos animais.
Leia mais em Carta Capital.24.06.2010 – O Pecado da Carne: “Maior “vilã” do clima, a pecuária busca maneiras de crescer sem desmatar e com menos emissão de gases que causam o efeito estufa”.
