Turistas Conferenciais

Arno Rochol
abril 13, 2010, 9:59 am

Se os fatos não fossem tristes até que gostaria de rir sobre eles. (Rir para não chorar é um velho recurso, que nós todos bem conhecemos, não é mesmo?) Refiro-me às inúmeras conferências e encontros que se realizam por este mundo afora e que… produzem o quê? – Nada!

Nada não é o termo mais certo porque essas conferências e encontros até que geraram o “turismo conferencial”. E tem muita gente ganhando um bom dinheiro com os “turistas conferenciais”. Tais como as agências de viagem, as companhias aéreas e as grandes companhias de hotéis.

E também ganham os turistas conferenciais, claro! Eles faturam uma diária polpuda, desfrutam de mordomia plena por alguns dias e ainda fazem um pouco de “sightseeing” em lugares atraentes. Resultados? Como? Se saíssem, estariam cortando sua fonte! E isso nenhum deles quer, claro!

Duas reuniões turísticas atuais me chamaram novamente a atenção: uma foi a reunião da ONU chamada – de novo! – de Conferência do Clima, realizada em Bonn, de 10 a 11.04.10, e a outra é a Cúpula sobre Segurança Nuclear, em Washington, de 12 e 13.04.10.

O encontro de Bonn reuniu 2 mil pessoas! Isto é, delegados, de quase todos os países do mundo. Inclusive do Brasil, claro! E qual foi o resultado? “Delegados de 175 países concordaram com mais duas sessões extras de negociações sobre o controle do clima ainda este ano…” – Mais nada!

Nada, não! Vai haver mais duas reuniões – extrasainda, para “preparar” a “próxima” Conferência de Cancún, no México, no fim deste ano. – E agora? Você, por acaso, ainda se lembra que em junho de 2009 já havia se realizado uma “Conferência do Clima”, em Bonn, para preparar a de Copenhague?

E você se lembra da Conferência de Copenhague, a COP-15? De quantas pessoas, entre chefes de governo, peritos, jornalistas etc foram fazer turismo na capital da Dinamarca? Foram mais de 30 mil! Agora calcule o preço financeiro – e climático! – desse mundo de gente viajando, e faça seu balanço.

Se a ONU fosse uma empresa, há muito que estaria falida. E não existiria mais. Se fosse uma instituição séria, há muito que teria vergonha. E teria mudado. Porque errar é humano, certo. Mas permanecer no erro… é diabólico! Não é mesmo?

“O mundo precisa se entender para salvar o planeta” é o título de um especial do Instituto Ressoar sobre a COP-15. Será? Primeiro: não vamos “salvar o planeta”, não! O planeta sobreviverá, apesar de todos os crimes ambientais que cometemos. Segundo: o que precisamos é salvar a nós mesmos!

E salvar os milhões de seres que estão sofrendo com as mudanças climáticas. Não só os milhões de seres humanos, que irão padecer com e até morrer pelos câmbios do clima. Mas todos os seres, porque a biodiversidade é uma de nossas maiores riquezas.

Os turistas conferenciais, no entanto, não estão nem aí para isso, nem para nada! Até dezembro, em Cancún, maravilhoso ponto turístico!, ainda haverá mais duas conferências “preparatórias” pela frente. Mais duas mil pessoas viajando pelo mundo afora para… para o quê mesmo? Para nada!

E você? Ainda espera, por acaso, que sairá algum resultado no encontro de Cancún, no fim do ano? Se você respondeu “sim”, também deve estar esperando algum resultado concreto da Cúpula sobre Segurança Nuclear, que se realiza em Washington, não é mesmo?

Lá estão cerca de 50 líderes mundiais, com suas delegações, “discursando”, entre canapês e jantares suntuosos, sobre os arsenais atômicos disponíveis. Não sei se você sabe, mas com eles daria para acabar várias vezes com toda a existência humana sobre a face da terra. – E agora?

Agora? Obama, o prêmio Nobel da Paz, fala, como seus antecessores falaram, em “terrorismo nuclear”. Mas… qual foi o país que começou a usar a bomba atômica como recurso político e intimidador? Você lembra de Hiroshima e Nagasaki (06 e 09.08.45)?

Aliás, quem define o que é “terrorismo”? É quem tem o poder? Poder para quê? Para matar? Para intimidar? Para extorquir? Para impor sua ideologia? Para declarar quem é “bom” ou “mau” em seu “joguinho” podre e vil de detenção e divisão de poder?

Cúpula sobre Segurança Nuclear! De quem ou contra quem estamos realmente seguros?

“Em Washington, Lula defenderá eliminação total de arsenais nucleares” é a manchete do sítio da Globo, nesta terça-feira. Eu, ao contrário, defendo outra coisa: a eliminação total do turismo conferencial. Aí já nos livraríamos de muitos lero-leros e nos sentiríamos bem melhor.

Ficaríamos livres dessas notícias vazias sobre encontros de cúpula e conferências vazias, nas quais se reúnem pessoas e líderes vazios. Que dominam a retórica, fazem turismo e nada mais na prática. – E você, agora? – Qual é e qual será o seu papel nesse turismo conferencial?

Se você quiser uma sugestão, ei-la: conscientize-se da urgência de mudarmos de paradigma. Primeiro, combatendo esse sistema econômico suicida. Depois, empenhando-se pela prática de ações diárias e concretas, que ajudem na construção de um mundo e um futuro mais justos.

Sem turismo conferencial. E até se diz que, para uma pessoa inteligente, meia palavra basta.

Palavras-chave: Gruga.org

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