Não Pude Suportar

Arno Rochol
abril 2, 2010, 7:54 pm

Estimados amigos do Grupo Gaia!

Há meio ano escrevi o último blog, intitulado “Fim da Linha”. Hoje já é o dia 2 de abril de 2010. Mais um dia mágico. A soma de seus números dá 9! E voltei. Mas não voltei por causa da numerologia, não. Voltei a escrever porque não suportei duas coisas: o artigo de capa da Veja de 14 de março passado, “O Psicótico e o Daime”, abordando causas do assassianato de Glauco e de seu filho Raoni, e o julgamento de dois jovens alemães, que mataram quatro pessoas no ano passado em Eislingen. Justamente mãe, pai e duas irmãs de um deles.

Veja escreve: “No universo das tragédias, há as do tipo previsível e as que fulminam suas vítimas com a imprevisibilidade de um raio. O assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas, de 53 anos, e de seu filho Raoni Ornellas Vilas Boas, de 25 anos, cometido por Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, certamente não pertence à primeira categoria.” O assassinato bárbaro cometido pelos dois jovens alemães, de 18 e 19 anos na época, que ocorreu justo na noite para a sexta-feira santa de 2009, também não pertence ao tipo de tragédia previsível.

Os dois jovens de Eislingen, segundo critérios convencionais, eram totalmente normais, da classe média-alta, e tinham uma vida social e familiar praticamente exemplar. Tanto é que o assassinato dos pais e das duas irmãs (24 e 22 anos) chocou muito todo o país. E todos se perguntavam “como puderam” e “porquê”? Condenados, ontem, às penas mais altas possíveis, parece que o motivo principal foi… avareza! O filho queria ficar com os bens do pai, avaliados em 1 milhão de euros.

Independente do motivo ou dos motivos, não consigo realmente “suportar” a ideia de ver quatro pessoas mortas a sangue frio. Seja pelas razões que foram, mas muito menos por avareza. E no caso do assassinato de Glauco e Raoni? O que levou Cadu a matá-los? A Veja tem uma resposta, expressa no título da matéria: “Alucinação assassina”! E aproveita o caso não para entender as causas ou pelo menos se aproximar das causas que levaram Cadu a praticar o crime, mas Veja usa o acontecido sobretudo para incriminar os que consomem o chá ayahuasca, em particular, e, a sociedade que tolera esse consumo, em geral.

A linha e a parcialidade jornalísticas de Veja são conhecidas. Não é de hoje que ela usa fatos como esse para justificar ou explicar questões sociais que deveriam ser abordadas com muita seriedade e nenhuma parcialidade, muito menos sensacionalismo. Dos graves erros da matéria, destaco os seguintes: não se pode jamais, logicamente falando, usar uma parte pelo todo ou justificar o todo por uma parte. Que Cadu tomou ayahuasca é um fato parcial. Mas daí não se pode totalizar, ou seja, não se pode deduzir que “todos que tomam ayahuasca seriam assassinos”! Veja, contudo, não só insinua isso, como até tira uma conclusão “lógica” desse argumento falso!

Segundo erro: imagino que nenhum dos autores da reportagem já tenha provado ayahuasca. Muito menos que a tenham tomado regularmente, em rituais e em grupo. Portanto, só escreveram sobre o chá em teoria. Seu conhecimento é restrito. Isso poderia ter sido compensado, mas… nova falha! Não deram voz a nenhum membro dos diversos grupos que utilizam o daime por motivos espirituais, desrespeitando a ética jornalística.

Em vez de dar voz à outra parte, usaram argumentos dúbios baseados em “pesquisas recentes”, sem citar quais seriam, muito menos quais foram as fontes. E essas pesquisas teriam indicado “alterações no sistema nervoso provocadas pela dimetiltriptamina, a DMT”, que, como Veja escreveu, é: “… o princípio ativo presente na beberagem consumida por adeptos da seita.”

Outro erro ético profissional: qualificar intencionalmente alguém ou algo com termos depreciativos, para denegri-los, como Veja faz escrevendo “beberagem”, “religiosidade pastoril” etc. Esta qualificação depreciativa bem revela a “parcialidade” da revista, que visa, obviamente, induzir os leitores a formarem o mesmo juízo defendido por ela. O de se considerarem inimigos dos “malfeitores alucinados” que estariam acabando com a “civilização modelar”, como se pode interpretar pelo conteúdo da Carta ao Leitor, intitulado de “Alucinação e civilização”.

Esses “moralistas”, contudo, não declaram explicitamente qual seria a civilização que estariam defendendo. Mas não é difícil de ver que deve ser a civilização cristã-branca-ocidental-europeizada-capitalista-neoliberal, claro. – E agora?

Agora não vá pensar que quero justificar algum tipo de assassinato, não. Só quero chamar a atenção para a hipocrisia dessa civilização predominante. (Curioso! O termo “civilizado” significa, entre outras coisas, segundo o Aurélio, ”Bem-educado, cortês, urbano, civil.”) Os assassinatos de Glauco e Raoni e de Eislingen são monstruosidades, são crimes horríveis, não tem dúvida alguma. Mas… e os crimes perpretados pela ideologia dessa civilização cristã-branca-ocidental-europeizada-capitalista-neoliberal… como eles devem ser taxados?

Aliás, escrevo estas linhas porque também aceitei o desafio da “Carta ao Leitor” de Veja, no qual se lê: “Para além do clamor que o fato vem provocando, VEJA decidiu publicar uma reportagem especial sobre a morte do cartunista Glauco  e de seu filho Raoni, (…) porque o crime suscita uma discussão a respeito de tolerância e limites.” (O negrito é meu!)

E depois de acusar órgãos públicos de negligência por liberar o chá ayahuasca no Brasil, em 1992, a revista conclui: “O trágico episódio que causou a morte de Glauco e de seu filho ainda tem pontos misteriosos, sobre os quais se debruça a reportagem de VEJA desta semana – mas desde já chama atenção para o risco de exageros quando se pratica a tão desejada tolerância”.

E agora eu pergunto: em relação aos crimes perpretados pela ideologia dessa civilização cristã-branca-ocidental-europeizada-capitalista-neoliberal, qual é a tolerância de Veja? Como ela os trata?

Enquanto aguardo a resposta, deveríamos aproveitar a deixa para falar um pouco sobre tolerância e limites. Como, por exemplo, sobre os limites e a tolerância que se tem em relação ao consumo de bebidas alcooólicas. Você quer um exemplo? Segundo um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de 2004, “… mais de 75.000 pessoas morrem todos os anos nos Estados Unidos como conseqüência do consumo excessivo de álcool”.

Isso num “país modelo” da civilização que Veja contrapõe à chamada “barbárie da alucinação”! Quer mais dados? Estes são de 2007: Pelo menos 2,3 milhões de pessoas morrem por ano no mundo todo devido a problemas relacionados ao consumo de álcool, o que totaliza 3,7% da mortalidade mundial, segundo um relatório elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).”

Mais dados? Como os que falam sobre o número de mortos em conflitos armados e guerras? Ou dos que falam sobre o número das vítimas de trânsito ou das drogas ? Ou dos dados que abordam o número de pessoas que sofrem de fome diariamente?

“O número de pessoas que passam fome no mundo chegará neste ano ao recorde histórico de 1 bilhão, segundo a projeção mais atualizada da FAO, o braço da ONU para a agricultura e alimentação, divulgada nesta sexta-feira.” (BBC,19 de junho, 2009 )

Da mesma notícia: “A FAO estima que 642 milhões de pessoas passem fome na região da Ásia e Pacífico. A África Subsaariana possui 265 milhões de pessoas com fome. Em seguida, vêm a América Latina e Caribe (53 milhões), África do Norte e Oriente Médio (42 milhões) e os países desenvolvidos (15 milhões).”

E você já sabe quantas crianças são mortas por causa da fome? “Morrem 6 milhões de crianças de fome por ano”, segundo dados de 2007, o que dá 16.438 crianças mortas pela fome por dia! Ou seja, 685 por hora! Mais de 11 crianças mortas pela fome por minuto! Neste instante! E tudo porquê?

É sobretudo a ideologia em vigor, a “nossa ideologia”, que causa esses crimes bárbaros, essas verdadeiras hecatombes. E são os defensores dessa ideologia que usam crimes hodiendos como os de Cadu e de Eislingen para encobrir as causas de suas “alucinações”.

Isso que nem toquei no ecocídio, na hecatombe que está ocorrrendo devido às mudanças climáticas causadas pela ação dos “civilizados”. Das pessoas “bem-educadas”! Mudanças essas que já agora estão acabando com todas as chances de vida de milhões de pessoas das futuras gerações.

É bem isso! Falemos, sim, de tolerância e limites. Mas sem sectarismo algum. E o quanto antes, melhor! E torçamos para que não seja tarde demais, nem que já estejamos no fim da linha!

Palavras-chave: Alternativas, Esperança

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