Caqui a 89 Centavos. Manga Também
Estive num super-mercado Aldi de Bonn, onde moro. Havia caquis do Brasil por 89 centavos de €uro, a unidade, o equivalente a 2 Reais. E mangas do Peru! Também pelo mesmo preço. Os caquis brasileiros estavam “lindamente” embalados, envoltos em capinhas de material sintético etc. Uma maravilha!
Maravilha? Discordo! Veja porquê! Tente calcular qual foi a parte dos 89 centavos de €uro que ficaram com o produtor? – E com quanto ficaram os seus empregados? – Qual foi o custo do material e do transporte? E o que ficou desses 89 centavos de €uro para os funcionários do Aldi? – Quanto para os donos?
Imagine, agora, qual foi o custo ambiental desses caquis? Sua produção não é orgânica. Para deixá-los “bonitinhos” e “vingarem bem” passaram por vários processos químicos. As sequelas disso causam um alto preço ao solo e a todos, também às novas gerações. Estes custos não estão incluídos nos 89 centavos!
Quem os paga? É claro, nós todos! Nós pagamos seguro saúde, e com ele pagamos os danos causados à nossa saúde pelos solos contaminados e por ingerirmos alimentos envenenados. E pagamos os custos ambientais resultantes da embalagem dos caquis, pelo lixo que causam, pelo seu frete aéreo etc.
Aliás, você já se deu conta do preço que está embutido nos produtos e serviços que consumimos? Não só o valor financeiro! Mas também o custo que nem foi calculado, como o preço do nosso futuro? O custo das pesadas hipotecas que estamos deixando às novas gerações? Você já se deu conta disso?
Veja, agora, outro detalhe: a rede Aldi foi fundada por dois irmãos alemães, Karl e Theo Albrecht, em 1962. Hoje possuem fortunas e impérios internacionais. Segundo a revista Forbes, Karl é o alemão mais rico e a 10ª maior fortuna do mundo. Sua riqueza é de 23,5 bilhões de dólares (março de 2010).
Theo possui a terceira maior fortuna da Alemanha e é o 31º colocado no ranking da Forbes, com 16,7 bilhões de dólares. – De onde será que vem o dinheiro dos dois? – Aliás, de onde vêm as fortunas dos bilionários? – E quanto será que ganha um funcionário do Aldi? Como são suas condições trabalhistas?
Veja mais: quanto será que ganhou o empregado do produtor brasileiro que exportou os caquis? A mesma miséria que o funcionário do Aldi? – E o produtor? – Quanto ganhou do governo brasileiro só em subvenção? E de onde vem o dinheiro da subvenção? – É isso mesmo! Da e do contribuinte brasileiros!
É seu dinheiro também, portanto, que paga para o consumidor alemão comer o caqui brasileiro “barato”. É o seu dinheiro que também paga a contaminação causada pela produção de caquis “baratos” no Brasil e seu transporte para o mercado alemão. É seu dinheiro que paga a injustiça trabalhista e o nosso ecocídio!
Outra questão. Você já deve ter ouvido falar nos trilhões de dólares que todos os quase 200 países deste mundo devem, não? A Noruega, por exemplo, um dos países mais “ricos” – financeiramente falando, – possuía, em 2009, uma dívida externa de $469,1 bilhões.
Você sabe quem é o líder mundial em dívidas “externas”? Acertou! Os Estados Unidos! Há poucos meses, sua dívida ainda era de $12,25 trilhões. – E agora? – Responda-me duas perguntas simples: 1º: quem paga essa dívida? - 2º: quem ganha com essa dívida?
Você já se perguntou isso? Ou já se deu conta disso? – Quem ganha são os “donos” do dinheiro, é óbvio! Os banqueiros. Os que mandam no capital! – Quem paga? – Isso! Os assalariados. Claro, porque os donos do dinheiro não pagam impostos de renda, nem contribuição alguma. Eles têm os seus “truques”!
Um deles é abater os custos, justificando que estão criando empregos, etc. Outro é desviar dinheiro para os “caixas dois” ou para as contas secretas nos “paraísos fiscais”. Outro é inventar “esquemas” que o cidadão comum não compreende. Mas que rende! Como o “lançamento de títulos de dívida externa”!
E tem mais! Você gosta de futebol ou de fórmula 1? Duas modalidades “esportivas” que rendem bilhões, sem dúvida. Kaká é muito religioso e ganha uma das maiores fortunas “dadas” pelo “esporte das multidões”. E as equipes e os pilotos da fórmula 1 também rodam pelos autódromos, faturando milhões.
Mas… de onde sai todo esse dinheiro que recebem? – Do seu bolso, claro! – É você quem paga a publicidade e o patrocínio! – Todos os milhões “dados” aos milionários da bola, da fórmula 1 e dos outros esportes, não caem do céu! Eles entram nos custos das empresas que os financiam.
E você paga por tudo na hora de comprar um produto ou usar um serviço deles. É simples. Mas tem muita gente que não sabe disso, nem pensa nisso. Que aceita tudo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Como se fosse lógico e natural! E não é tão lindo, de fato, ver a seleção brasileira jogando?
Você não acredita? Mas, então me diga quem é que paga as fortunas dos bilionários? Quem é que paga os altíssimos salários dos banqueiros, empresários, esportistas e gerentes? Quem é que paga os altíssimos custos que estamos causando ao meio ambiente e à sobrevivência das gerações futuras? – Quem?
(Anteontem estava vendo o jogo Barcelona X Inter de Milão, num bar de Bonn. À minha frente estava um “manager”. Desses caras “importantes”! De terno, gravata e… iphone! No intervalo, mexia no aparelho dele. Dei uma olhada sobre seus ombros para ver o que seria tão importante, numa pausa de jogo, e…?
Estava lendo matérias econômicas – online – de jornais conservadores sobre a dívida e os empréstimos da Grécia. E acompanhava um “diálogo”, também online, sobre esses temas. Um dos “chatistas”, de pseudônimo Spekulatio, escreveu: “Deveríamos ter muito mais capitalismo e bem menos Estado”.)
E agora? Mais capitalismo! E os milhões de esfomeados? E os trabalhadores e empregados injustamente remunerados? E os que vivem em condições desumanas? E os que não podem desfrutar de escola ou de trabalho digno? Menos Estado? E o que é da injustiça cada vez mais gritante e aviltante dos dias atuais?
Se puder, reflita sobre isso neste 1º de maio! Dê a sua contribuição para tornarmos o nosso mundo mais humano e justo. Para termos mais respeito no nosso relacionamento profissional. Para termos mais justiça nas relações trabalhistas. Para podermos viver melhor, mais felizes, com dignidade. Hoje e no futuro!
Porque o problema já é antigo. Veja este epigrama de Juan de Iriarte, do século XVIII. “O senhor Juan de Robres, com caridade sem igual, construiu este lindo hospital… e também gerou os pobres.” – Não sejamos os que batem palmas aos Juan de Robres da história! Nem nos deixemos enganar – jamais – por eles!
