A Fita Branca & Autodeterminação
Aproveitei a Páscoa para ver “A Fita Branca”, filme vencedor do Festival de Cannes de 2009. É imperdível. Ele narra a vida de uma comunidade rural na Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial. Uma vida que parecia “normal” e passa a ser abalada por misteriosos e violentos incidentes.
Maurício Stycer comentou a respeito: “O austríaco Michael Haneke é um dos mais importantes cineastas em atividade. Seus filmes costumam provocar perplexidade e mal-estar, por abordarem a violência, física ou psicológica, inclusive contra crianças, de forma muito direta, sem rodeios.”
O filme descreve, sem moralizar, tipos de normas e de comportamentos, individuais, familiares e sociais, que impedem as pessoas de se realizar com autenticidade. Negando-se-lhes isso, elas podem tornar-se presas fáceis de sistemas autoritários e ditatorias. E algumas se revoltam, se vingam. No anonimato.
O filme de Haneke, no entanto, não é uma parábola sobre o nazismo. Ele próprio afirmou, numa entrevista, que não se trata de um um filme sobre um problema alemão, mas “sobre as raízes do mal”. E estas nascem de ideologias, que desrespeitam os direitos fundamentais do ser humano.
Um dos nossos direitos fundamentais é a liberdade. É poder decidir quem nós realmente queremos ser, desde pequenos. E isso continua sendo desrespeitado até os dias atuais. O nazismo foi horrível, sem dúvida. Mas o bolchevismo e o maoísmo também foram. E vários outros “ismos” continuam sendo!
Como o neoliberalismo e o fascismo religioso! Suas “raízes do mal”, a ganância material e a intolerância religiosa, causam milhões de vítimas. Ou seja: só mudou o cenário. “A Fita Branca” continua. Nesses 100 anos para cá progredimos, sim, mas no mais básico, não: na nossa forma de ser e de conviver.
Ainda hoje há formas de educação brutal, repressiva e opressora. Ainda hoje a hipocrisia é a tônica dominante de nossa vida social. Ainda hoje o patriarcalismo e o machismo impedem o desenvolvimento integral e a autodeterminação de milhões de crianças, jovens e mulheres.
As vítimas de “A Fita Branca” se vingaram por meio de vandalismos e sevícias. E o que vemos hoje? Assassinatos em massa e violência urbana. Mas será que a fuga nas drogas, no trabalho e no conformismo também não são uma forma de vingança? De “mutilação individual” e “homicídio coletivo”?
Aliás, você já se perguntou, até que ponto é realmente livre para autodeterminar como quer viver? Em outras palavras: você sabe porquê se comporta do jeito que se comporta? Ou seja: você se conhece? Estas questões podem parecer fáceis de se responder à primeira vista. Mas… no fundo, nem tanto.
A liberdade pessoal é um direito fundamental. Como também o é decidir sobre o seu próprio destino. Ser “o” ou “a” autor/a de sua vida. Esta questão nos acompanha do nascer até à morte. E na teoria o tema é complicado. Na prática, não, pois quem de nós não se sente mal quando não é considerado?
Nossa sociedade, “tão avançada”, decanta noite e dia os progressos que teríamos feito em nossa liberdade pessoal. E o ideal da liberdade individual é tão venerado quanto um deus. Ela é tão “adorada” que chega a ser colocada até acima de qualquer interesse e liberdade coletivos. Duvida? – Observe ao seu redor…
O que vale mais? A sua liberdade ou a “concorrência”? A sua realização ou o sucesso dos outros? A sua decisão ou a manipulação e a lavagem cerebral diárias feitas através da mídia? Isso sem falar nos perigos ocultos, que também ameaçam a sua autodeterminação, e os quais você talvez nem conheça.
Mas, o que seria mesmo uma vida autodeterminada? Ou será que autodeterminação é algo utópico? Resumirei, agora, algumas respostas e ideias defendidas pelo filósofo suiço Peter Bieri num programa da rádio WDR5, de Colônia. Diz ele que há duas variantes de autodeterminação.
A primeira variante de uma vida autodeterminada é quando não há tirania exterior, seja de um ditador ou por escravidão. Quando não há a tirania da miséria, de doenças ou de cônjuge. E também quando não há a tirania de patrões, de senhorios, nem de sistemas socioeconômicos!
A segunda variante é: como e quanto eu mesmo posso determinar sobre a minha vida? E aí há dois tipos: os que são levados pelo turbilhão da vida e que não param quase para refletir. E há os que usam sua capacidade de pensar sobre si e os seus atos. Que tentam se conhecer um pouco mais e melhor.
O autoconhecimento é o primeiro passo e o início de toda autodeterminação. Para chegar-se a ele a gente deve distanciar-se um pouco de si, se observar e se perguntar: quem sou e o que penso? Em geral, diz Bieri, as pessoas não sabem o que pensam. Para facilitar esta prática, ele sugere as seguintes perguntas:
O que eu penso exatamente sobre… justiça? Patriotismo? Política? Religião? – Segunda pergunta: o que eu desejo / quero realmente? Quero seguir esta carreira? Desejo casar? – Terceira questão: o que é que eu sinto, de fato? Com que me emociono mais? O que me deixa frio?
Na questão do “sentir” a coisa fica mais difícil, sobretudo quando se trata de emoções complicadas, como inveja, ódio, ciúme, aflição. É que as emoções gostam de se disfarçar, transmudar. Por isso, todo cuidado é pouco. O importante, nessa busca, é descobrir a sua verdadeira “identidade psíquica”. Facilita muito.
Desse processo surgem duas novas perguntas: quem sou eu, de fato? E, quem eu gostaria de ser propriamente! A distância que eu mantenho com o meu eu também implica numa distância normativa, da qual resulta nova pergunta: “Será que estou satisfeito com quem eu penso, desejo e sinto ser?”
A resposta a essa pergunta é a experiência mais importante que podemos fazer no início do processo de autodeterminação. E em geral respondemos: “Não estou satisfeito, não, com minha maneira de pensar, de querer e de sentir”. Esta resposta dará, então, um grande impulso na busca da autodeterminação.
Muitas vezes as respostas que damos às perguntas anteriores podem provocar tristeza ou até crises existenciais. Mas elas são básicas para motivar-me a seguir com a minha autodeterminação. Sempre lembrando que ela é um processo, no qual pode haver avanços, paradas e também retrocessos.
Nesta caminhada, o importante é tentar conhecer-se, entender-se e saber o que se pensa, deseja e sente. Sabendo que tudo está interligado. Que de desejos surgem emoções, de emoções nascem ideias e estas podem criar novas emoções. E nisso também devemos ser sempre muito sinceros.
Dar nome aos bois! Não basta conhecer-se. É preciso empregar as palavras e expressões corretamente. Não se deve distorcê-as. Isso é importante porque sua expressão verbal determina o que você pensa e sente. Seja cuidadoso e sincero na hora de falar. Meça as palavras. Isso refletirá o seu interior.
Quem não tem clareza nos seus pensamentos não pode ter clareza nas suas expressões. E vice-versa. E quanto mais preciso, mais diferenciado, mais cuidadoso e mais rico for seu vocabulário, tanto mais precisos, diferenciados, cuidadosos e ricos serão seus pensamentos. Mais reais e menos falsos.
Duas coisas para finalizar: na busca do autoconhecimento e da autodeterminação há o perigo da gente se auto-enganar. Para observar isso, faça um teste: pergunte a si próprio o que você pensa, deseja e sente, de fato? Pelas respostas que você der, você pode se aproximar ou afastar da verdade.
Imagine, agora, se uma outra pessoa fizesse a mesma pergunta a você, sobre o que pensa, deseja e sente. Sua resposta dependeria bastante do seu relacionamento com essa pessoa, não? E você poderia responder com mais ou menos sinceridade, justamente por causa dessa pessoa.
A influência da opinião dos outros pesa muito nas nossas formas de pensar, querer e de sentir. Por isso, cuidado! Muitas vezes nos deixamos levar pela opinião “pública”, que pode ser alheia à nossa. Esta opinião externa torna-se, assim, um tirano, que nos dificulta ou até impede de autodeterminarmos nossa vida.
Depende de cada um permitir que o “olhar” público ou que a “fala” alheia tenha muita, pouca ou quase nenhuma influência nas suas decisões. Depende da sua inteligência em saber o que realmente pensa, quer e sente. E de sua vontade em buscar a autodeterminação, sem deixar-se enganar por nada.
Poucas pessoas são as que realmente autoconduzem suas vidas. Poucas são as que dizem a verdade, independente do público. Estas são as pessoas íntegras. É delas que precisamos para não sermos mais manipulados, reprimidos, nem oprimidos. Para jamais alguém querer colocar-nos “fitas brancas”.
