A Face Esvaecida de Gaia

Arno Rochol
agosto 8, 2009, 8:18 am

James Lovelock, co-autor da Teoria de Gaia, completou 90 anos no passado dia 26 de julho. Foi ele quem mediu pela primeira vez, há 40 anos, os CFCs (clorofluorcarbonos) no ar. Foi a partir daí que se descobriu seus efeitos negativos na atmosfera. Menosprezado no início, hoje é o quinto colocado na lista elaborada pelo governo britânico das 100 pessoas que mais se empenham em salvar a terra.

Lovelock lançou há pouco o livro “The Vanishing Face of Gaia”, A Face Esvaecida de Gaia. Há três anos o cientista já havia publicado “The Revenge of Gaia”, A Vingança de Gaia, no qual alertava para as mudanças climáticas. Ele escreveu um novo livro sobre o mesmo tema, em tão curto espaço de tempo, porque diz estar muito preocupado com o que ainda está por vir.

O jornal General Anzeiger, de Bonn, entrevistou-o a respeito da obra e por motivo dos seus 90 anos. A entrevista foi publicada na edição de 25/26.7.09. Logo no início, ele fala como ficará a cara de Gaia: “O exterior de nosso planeta vai mudar. Os desertos irão aumentar e os mares ficarão mais claros, porque irá reduzir-se a quantidade de vida neles.”

No novo livro, Lovelock critica os modelos e projeções de câmbios climáticos atuais, taxando-os de “demasiadamente otimistas”. E dá um primeiro recado: “Os políticos fazem leis baseando-se em previsões de modelos. Isto é muito, muito tolo. Economistas não podem fazer um prognóstico confiável, mas o reconhecem. Os modeladores climáticos confiam demais em seus modelos.”

Repórter: “De onde o senhor sabe isso?”

Lovelock: “Os modelos não apresentam resultados certos nem para o presente. Estão horrivelmente errados no aumento do nível do mar e no degelo do Ártico. Em 2007 e 2008, a diminuição do gelo polar já atingiu a proporção que haviam anunciado o mais cedo para 2040. Ou seja, muitos anos antes. O fato dos modelos não previrem corretamente nem o que aconteceu até hoje me assusta. Nós vamos ter grandes dificuldades, se confiarmos nos prognósticos dessa gente para 2050. Eles crêem num aumento suave da temperatura, mas a terra normalmente procura situações estáveis. E as transições entre esses estados são em geral bruscos. Acho que estamos a poucos instantes de um salto assim para uma era quente.”

Repórter: “Como é que tantos cientistas de renome podem se enganar?”

Lovelock: “É que confiamos demasiado no computador e em cientistas que se ocupam mais com simulações do que com o mundo real. Este é o problema. Os projetistas falam de seus modelos como se fossem o mundo verdadeiro. E se o mundo real não corresponde aos modelos, aí duvidam antes do mundo ou de seus dados. Acho que a ciência está indo para o beleléu. Ninguém mais faz experimentos. Só fazem modelos, só simulam.”

Repórter: “Mas são recolhidos dados! Afinal os modelos são desenvolvidos tendo por base esses dados e são alimentados com dados reais.”

Lovelock: “Sim, mas nem sempre. Em algumas áreas já nem se captam mais dados. Eles sabem menos sobre os mares do que sobre Marte. Andrew Watson, um ex-aluno meu e hoje professor, sugeriu instalar aparelhos de medição em navios cargueiros para determinar a temperatura e o conteúdo de CO2 na atmosfera e nos oceanos, e assim examinar a troca de CO2 entre os dois. Isso talvez teria custado umas 200 mil libras. Ninguém quis pagá-lo. Os governos gastam bilhões com modelos, mas investem pouco em medições exatas. Isso é uma loucura.”

Repórter: “Qual é a causa disso?”

Lovelock: “São os burocratas que geram o dinheiro. Em geral eles vão direto da universidade para a administração e não tem experiência alguma em pesquisa científica. Ouvi uma vez um deles dizer: ‚Para que precisamos de ciência prática? Nós podemos encontrar tudo no Google’. Isso mostra quão ruim está a coisa nesse meio tempo. Computadores são como uma doença, que nos atacou no fim do século XX.”

Mais adiante, o entrevistador pergunta: “O que o senhor (mais) propõem?” O cientista responde:

“Em vez de preocupar-nos com nosso carbon footprint (pegadas de carbono), melhor seria se nos adaptássemos. Deveríamos reconhecer que o mundo está mudando e prepararmo-nos para isso. Não deveríamos usar nossa força para ser verdes, pois não iremos mais sustar o processo. Esta não é uma boa notícia para a Alemanha, pois ela gasta muito dinheiro em energias verdes. Não sou contra a energia solar nem eólica, mas elas nada irão resolver, esta é a questão. Com isso nós nos afastamos do problema em si.”

Repórter: “E qual será ele?”

Lovelock: “Um desafio especialmente grave serão as migrações de pessoas. Nós temos que nos preparar para conseguir novo espaço de vida para muitas pessoas, para integrá-las na sociedade. Este será um enorme desafio.”

Repórter: “Sete bilhões de pessoas poderão se preparar e adaptar? E ainda haverá lugar para tantas pessoas?”

Lovelock: “Não. Acho que muitos irão morrer. No final do século talvez ainda vá existir um bilhão de pessoas, mas isso é difícil de prever.”

Repórter: “De que as pessoas vão morrer?”

Lovelock: “De muitas coisas. Fome, sede, secas, doenças. Também haverá guerras. Enfim, diante de nós está tudo aquilo que simbolicamente está descrito nos quatro cavaleiros do Apocalipse.”

Repórter: “O senhor também tem uma boa notícia?”

Lovelock: “Bem, a humanidade como tal vai sobreviver, se bem que em número bem menor. Eu tenho esperança de que a seleção iminente também conduza a um desenvolvimento posterior, e que o ser humano um dia se torne um elemento útil de Gaia. Uma espécie capaz de viver em equilíbrio com Gaia e com todas as demais formas de vida.”

Palavras-chave: Gruga.org

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