Identidade & Memória
“Nós somos o que somos devido ao que aprendemos e ao que nos lembramos”, Eric Kandel, Prêmio Nobel de Medicina de 2000. Nesta quinta 2, foi lançado na Alemanha o documentário “À Procura da Memória”, de Petra Seeger, sobre a vida do descobridor dos processos neurobiológicos da memória. A frase de Eric Kandel mexeu comigo.
Há muito que me preocupo com a nossa maneira de viver em sociedade. Para entendê-la, procuro saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos. E me chama muito a atenção o fato de repetirmos vários erros do passado. Será por não querer reconhecê-los? Porque é mais fácil o “oba-oba” do que o “mea culpa”?
Acho que sim. E nós nos engamos a torto e a direito. Nos definem como “homo sapiens sapiensis”, mas não passamos de principiantes. Lembramos os “heróis” de batalhas, nossas “gloriosas datas” e esquecemos que a vida não é só alguns anos, não acontece só na terra, e não é uma dura guerra. Nós somos muito mais!
Nós somos o que aprendemos! E o que aprendemos em casa? Em nossas escolas e universidades? O que aprendemos das religiões e das nossas instituições? Se a nossa sociedade está como está, não é justamente porque aprendemos para viver assim? Cada um por si e deus contra todos? Adorando o dinheiro, sobrevalorizando a competitivade e desprezando a solidariedade?
Na semana que passou, encerrou-se mais um ano letivo na maioria dos estados alemães. Num jornal de Bonn, mostraram-se várias fotos das classes que concluíram o segundo grau. Me assustei. As diferenças entre tipos de escolas se espelhavam na roupa dos alunos: os das escolas “melhores” estavam “bem vestidos”. O das escolas “inferiores”, de roupa comum.
Você acha que isso não tem importância? Tem, sim! Pelo meu linguajar, pelo modo de me comportar e de me relacionar expresso quem sou. E por minha forma de me vestir também! Um técnico do “esporte das multidões” vestido de terno e gravata? Para quê? Um cardeal católico fantasiado com trajes da Idade Média? Para quê?
Há anos vem se observando, no mundo, uma acentuada divisão de classes. A elite rica de um lado, a enorme massa “falida” do outro. E a Alemanha não é exceção. A respeito, o perito em Ciências Polítcas Christoph Butterwegge publicou no Süddeutsche Zeitung desta sexta-feira 3, uma análise assustadora sobre o futuro do país.
Butterwegge prevê um aumento no número de desempregados em até 5 milhões, um crescente empobrecimento (a tradução exata seria “em-miseriamento”!) e um recorde do endividamento público. Isso criará, como ele diz, uma “pobreza pública” numa dimensão jamais conhecida e sentida anteriormente.
Em setembro próximo haverá eleições parlamentares na Alemanha e a luta dos partidos pelo voto dos eleitores já se faz sentir. O politólogo critica os conservadores por suas promessas de não aumentar determinados impostos, que privilegiam só as classes ricas. O lema desses partidos seria “multiplicar a riqueza em vez de diminuir a pobreza”.
O clima social alemão, segundo Butterwegge, irá tornar-se áspero. Fenômeno igual se observa no mundo todo. E de quem será a responsabilidade? Será que a recente crise financeira mundial foi causada só por Bernard Madoff ou pela ganância dos investidores? Madoff foi condenado a 150 anos de prisão. E os demais?
Várias pessoas e instituições entregaram seu dinheiro aos Madoff´s e gerentes gananciosos porque quiseram multiplicar seu capital da maneira mais rápida e fácil possíveis. Mas… Quem dessas pessoas e instituições e gerentes se preocupa com justiça social? Com equilíbrio ambiental? Com paz e felicidade para todos?
Aliás, é fácil desfazer-se de sua responsabilidade e pôr a culpa em alguém, não é mesmo? Não foram Hitler e os nazistas que causaram a Segunda Guerra Mundial? Nada! A OCDE, Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, aprovou há pouco uma resolução na qual equipara a responsabilidade soviética pela deflagração da guerra a dos nazistas.
Quantos políticos e poderosos gostam de apelar para o “orgulho” e fomentam o cultivo dos “heróis”?! Mas você já viu algum deles dizer que se envergonha por um ato injusto ou criminoso que cometeu? E lhe pergunto: apoiar ativa ou passivamente um sistema político-econômico que exclui e mata milhões de pessoas é o quê? – Motivo de orgulho ou de vergonha?
Muito se escreveu e se falou sobre Michael Jackson nos últimos dias. Gostar de suas músicas e reconhecer o que representou como artista, até aí, tudo bem. Mas fazer dele um “astro” e cultuá-lo como um “deus”, aí já passa dos limites. Política e socialmente falando, o que ele fez? Que exemplo deu? E até já se esqueceu que ele foi um pedófilo!
“Nós somos o que somos devido ao que aprendemos e ao que nos lembramos”. Milhões passam fome no mundo. Milhões de africanos estão entregues às moscas. A Terra está indo pras cucuais, e continuamos não sabendo quem somos e o que queremos. Será que somos só brasileiros, alemães, judeus, cristãos, espíritas, europeus, asiáticos, etc?
Será que somos só petistas, liberais ou esquerdistas? Qual é a nossa identidade real? Nós somos seres humanos. Fazemos parte de uma grande família de seres. Somos parte da Vida, da energia cósmica, que grupos religiosos chamam de Deus, Javé, Alá ou Tupã. E até não viemos dela. Nós somos a Vida! E não morremos. Só trocamos de espaço.
Enquanto não aprendermos isso, continuaremos sendo cristãos, evangélicos, espíritas e cada grupo brigará pela posse da verdade “absoluta”. E continuaremos sendo mesquinhos, com horizontes diminutos. Seguiremos nos peleando, fazendo guerras “religiosas”, destruindo nosso habitat e permitindo que milionários façam o que querem conosco.
Aliás, o estado da Califórnia, a oitava economia do mundo(!), vive há anos uma longa bancarrota. Angeline Jolie ganhou 27 milhões de dólares nos últimos 12 meses. Kaká e Ronaldo custaram 150 milhões de euros e vão receber salários milionários. E quem está pagando a grana deles? Você já se deu conta de que é você e eu? De que somos nós? – Claro!
Inveja minha? Não! A questão é que há milhões de pessoas passando fome e morrendo de fome. E elas são nossas irmãs e nossos irmãos. E aí lhe pergunto: como chutar uma bola pode valer mais do que uma vida humana? E como nós podemos “adorar” a um galáctico e menosprezar ou ignorar o nosso vizinho, ali do lado?
Nossa memória deveria dar mais espaço para as coisas reais e menos para as “fantásticas”. Nossa lembrança deveria ser mais viva e nosso egoísmo estar mais morto. Do que nos lembramos? – Só do que nos serve no presente! – O que aprendemos do passado? – Quase nada! - Este é, a meu ver, o nosso dilema. E a nossa saída!
“Nós somos o que somos devido ao que aprendemos e ao que nos lembramos”. Eric Kandel.
