Pontes, Muros e Trincheiras

Arno Rochol
julho 26, 2009, 10:04 pm

Estou atualmente em Boa Vista, capital de Roraima, para mais um curso de Jornalismo Ambiental. Os participantes vêm de várias partes da Amazônia. Todos com suas experiências, vontades, expectativas e anseios. Estamos sentindo e trabalhando um tema que é de vital importância para nós e, sobretudo, para nossos filhos e seus filhos.

Aliás, quantas filhas e filhos desta floresta e destes rios imensos já não foram expulsos de suas terras? Quantos não se explorou e matou? Quantas árvores centenares já não foram e serão derrubadas? Quantos rios contaminados pela cobiça? Quantas espécies de animais e plantas já não foram extinguidas e ainda serão? Se a Amazônia fosse gente, estaria em prantos e de luto por sua morte.

Chico Mendes, Irmã Dorothy e centenas de outros levantaram a sua voz e também foram mortos. Milhares de “severinos” são escravos de fazendeiros. Sem direito algum, sem o mínimo respeito. Andando-se pelas estradas que saem de Boa Vista, vêem-se campos sem fim. Cercados. Muitos abandonados. Outros com monoculturas. Terríveis, como a da acácia.

Deixando essas terras em espírito, do alto observaremos uma imensidade de verde vivo, com enormes feridas abertas. Queimadas, monoculturas, garimpos no real “inferno verde”! E se nos afastarmos ainda mais, de lá veremos quão maravilhoso é nosso lar no azul infinito, coberto por tênue pele branca. Que contraste poderá ser mais gritante do que o entre a natureza e as culturas humanas?

Na natureza tudo se interliga. Árvores formam grupos que se ajudam mutuamente. Animais se reproduzem com inteligência, adaptando-se ao seu meio e época. Há cadeias alimentares e a impagável riqueza da biodiversidade. Vivemos num paraíso, mas ainda não descobrimos isso. Somos simples partes desse mundo, mas ainda nos consideramos seus proprietários.

Quando será que vamos acordar desse pesadelo? Quando vamos ver que essa cultura européia-cristã-ocidental é a causa do nosso ecocídio e suicídio coletivo? Quando vamos dizer basta a isso? Quando vamos exigir que os representantes e donos dos pretensos e falsos deuses vigentes parem de pregar o “ide, explorai e dominai” a tudo e a todos? Sem dó nem piedade?

Só quando não houver mais retorno algum? Ou quando morrerem milhões de pessoas por aquecimento e desertificação, guerras de água, subida do nível dos mares? Ou só quando os cientistas tiverem construído o seu mundo artificial, com humanóides tele-dirigidos? Quando vamos nos desfazer dessa horrível descultura da morte para celebrar a cultura da vida e do prazer?

Que passará pela mente dos chefões das grandes empresas, encerrados em seus escritórios artificializados e protegidos por exércitos? Que passará pela cabeça dos políticos vendidos por seus interesses corporativos? Onde estará a cabeça dos líderes religiosos que só se ocupam com seu poder terrestre e céus artificias, excluindo e matando os que preferem criar um outro e melhor mundo?

Por onde você andar, por toda a parte observará cercas, muros e trincheiras. Reais, de arame farpado, eletrificados, de tijolos e concreto. De onde provêm essas armações? Caíram do céu? Surgiram da noite para o dia? – Não! – Essas cercas, muros e trincheiras foram criados bem antes na nossa cabeça. Eles foram feitos para nos dividir em grupos separados, para nos explorar mais facilmente.

A cerca da intolerância, o muro do egoísmo, a trincheira das batalhas religiosas, econômicas e políticas são resultado de nossas projeções e visões. Do mundo que herdamos de nossos antepassados e que mantemos de pé através de nossa cultura atual e de nossas tradições. Através de nossas religiões e sistemas econômicos, baluartes do terrorismo ideológico com o qual nos matamos.

Precisamos romper, por isso, com a maior urgência possível, os grilhões que nos atrelam a essa implacável bomba-relógio tiquetaqueante. Precisamos derrubar as cercas da ganância, derrubar os muros egoistas e grupais mesquinhos, e implodir as trincheiras do ódio e da covardia. Faça-o já e agora, por favor! Depois disso, passemos a construir pontes!

Erga uma ponte até o seu filho e sua filha. Peça a eles que venham conhecer esta mãe e este pai que também foram educados no mundo dos muros e das cercas, mas que estão tentando rompê-los. Construa uma ponte até sua irmã e seu irmão. Levante uma ponte ao seu vizinho. Descubra como o mundo fica diferente sem muros e trincheiras. Sinta como a gente, aí, passa a viver mais leve e feliz.

Pois não há divisão real entre céus e terras. Entre deuses cristãos e muçulmanos. Entre cidades e campos. Entre classes e grupos de interesse. Entre o “homem” e os animais e plantas. Somos todos filhas e filhos da mesma fonte. De um eterno e infinito manancial, bondoso e prazeroso. De um tecido que nos une intimamente, envolve, acaricia e nos faz sentir felizes.

É muito mais cansativo, doloroso e caro construir cercas, muros e trincheiras. É muito mais difícil e complicado delimitar fronteiras, pois são hostis à vida. Ela quer fluir, eterna e infinitamente, e nosso viver físico torna-se uma ilusão quando o atrelamos à matéria. Pior ainda é quando passamos a fazer da existência um objeto econômico e comercial. E quando do dinheiro fazemos o nosso deus maior.

A floresta amazônica não conhece muros, nem fortalezas, nem fronteiras. Aliás, todos os seres, com exceção do “homem”, não conhecem trincheiras, bastiões nem armamentos. Por isso, seja o primeiro a derrubar todas as cercas culturais que você herdou e usa. Seja o primeiro a destruir os muros que o separam de seu interior, de nossa real essência, o viver feliz. Desarme-se intelectualmente.

Seja a primeira a criar uma ponte ao seu passado. À sua infância. Integre-a na sua vida, com todo cuidado e empenho. Seja a primeira a a levantar uma ponte para todas as suas emoções. Tanto as prezerosas como as que lhe causam tristeza, dor e raiva. Erga uma ponte de encontro e de diálogo consigo mesma/o, para descobrir quem você realmente é e o que quer.

Depois disso, vamos erguer pontes entre nós todos. Entre negros, brancos, amarelos e vermelhos. Extendamos a mão aberta, distribuindo o que temos, com todo o prazer do doar e do amar. Não há ponte mais bonita do que aquela que nos leva até os outros. A todos! Também aos animais e plantas! E você verá, como será este novo mundo: pleno de justiça e alegria, de saúde e de harmonia.

É ridículo sonhar com um mundo assim, sem cercas, nem muros e trincheiras? Acho que não. Tente! Comece por você. E você verá do que é capaz e o que significa viver aberto e livre. E depois de ter consolidado esse primeiro passo, você irá querer erguer muitas outras novas pontes. Todas elas nos levando ao lugar que todos querem: à nossa casa. À nossa eterna e infinita morada. Nós mesmos!

Palavras-chave: Justiça Social, Terra

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