Educar é amor e exemplo

Arno Rochol
junho 2, 2009, 8:47 am

Não sei mais quem é a autora ou o autor do dito “educar é amor e exemplo”. Só sei que o achei perfeito, memorizei e passei a praticá-lo. E fico um pouco triste por tê-lo aprendido um tanto tarde. Ou seja, bem depois de já ter co-educado nossas três crianças. Com métodos que aprendi de meus pais e mestres. Pouco conformes com “amor e exemplo”.

O que mais primou na minha educação familiar e escolarização foi disciplina, castigo e “respeito”. Mas não o respeito nascido do saber o valor das pessoas e da vida e do conhecer os seus mecanismos. O “respeito” em questão era imposto e justificado por mandamentos e leis que nem sempre eram compreensíveis, porque não eram praticados.

Ou seja: era um “faça o que digo, mas não faça como ajo”. Aí me perdia entre o que poderia e deveria ser certo e o que via, a prática do errado. E quando não agia como de mim exigiam, o “respeito” à lei, ao mandamento, ao “superior” e ao mais forte era imposto por castigos, penas, surras e suspensão de carinho e amor.

Este “respeito” era sinônimo de terror e medo. E a gente fazia o que era dito e mandado, mas sem saber o porquê de nossas ações. Sentia-se que algo não podia estar certo, mas ai de comentar algo ou até de reclamar! Lá vinham mais castigos e até expulsões do convívio dos “bons e corretos”. E havia vários tipos de ostracismo! Uns bem duros até.

Escrevo isso porque educar é um processo que dura toda a vida. E se no início “sofremos” um tipo de educação, mais tarde, quando adultos, já temos a responsabilidade plena sobre a nossa vida. E sobre nossa educação, claro, pois viver é um eterno aprendizado. E aprender é se educar. E educar-se é amar-se e viver de maneira consciente.

Além da auto-educação, ainda somos educadores de diferentes maneiras. Seja na rua, como cidadãos responsáveis, ou em família, como tios e tias, vovós e vovôs. Em público sou educador pela minha maneira de me comportar. Ou seja, pelo meu exemplo! Se sou consumista, egoísta ou indiferente, ou defensor da natureza, solidário e engajado.

Em família, também somos educandos e educadores. Cada um de acordo com sua idade e responsabilidade. Lembra? Educar é amor e exemplo. É amar e viver coerentemente com as normas e leis que nos orientam. E aí volto a tocar na questão do “respeito”. E pergunto: o que é mais importante na vida? Aliás, a vida faz sentido? Tem um sentido?

Para mim e para várias pessoas, a vida tem um sentido, sim. Um psicólogo alemão, Martin Fegg, desenvolveu um interessante questionário, com o qual quis descobrir qual era o sentido da vida de doentes terminais numa clínica de Munique. Ele perguntou a mil pessoas o que lhes dava motivo para viver e recebeu três mil respostas diferentes.

Fegg separou as respostas por critérios como família, parceiros, amigos, lazer, espiritualidade, natureza etc. E descobriu o que dava sentido à vida dessas pessoas. O componente mais importante foi emocional. Foi o sentir-se realizado com o que se tinha vivido. O segundo foi ter uma estrutura e ordem na vida, o que lhes dava segurança. E o terceiro elemento foi ter metas e valores.

Este “esquema” realmente pode “configurar” nossa existência. Pode dar um sentido à ela. O esquema é simples: 1º: ter prazer no que se faz, sentir-se realizado com suas ações diárias. 2º: ter ordem e estrutura em sua vida pessoal, familiar e social, e, 3º: ter metas e valores. Parece fácil, não?

E é fácil, sim. O que complica é que ainda não aprendemos a ter metas e valores comuns. E é preciso? Bem… aí vem a história do subjetivismo e do objetivismo. Há os que dizem que cada pessoa dá um sentido bem pessoal e próprio à sua vida. E há grupos que dizem terem a resposta do sentido da vida para toda a humanidade. E ai de quem não segui-los!

Não quero entrar nesta discussão agora, mas só dizer que creio, sim, que todo o universo e nós fomos criados com um fim e um sentido. E seria ótimo se conseguíssemos descobrir respostas conjuntas, novas! É que as respostas dadas até agora não servem mais. Fizeram parte de um processo histórico. Mas os tempos são outros.

Veja a questão das metas e dos valores! Não pode ser correto que só tenhamos como meta explorar a todos e tudo de maneira irracional. Não pode ser correto que o dinheiro seja nosso valor mais importante. Não pode ser correto que cada grupo humano busque só a concretização de seus interesses e se esqueça do todo e do futuro.

E… se tivéssemos sido criados realmente por prazer e para o prazer? Para nos alegrarmos com a sinfonia cósmica e seu compasso de ser? Não seria bem melhor? Claro, porque amar não é só querer um bem abstrato e próximo. O amor é infinito e eterno, como a ser que nos criou. E quão inteligente não é, pois segue nos educando com seu amor e exemplo.

Veja a natureza! O que acontece? Há um animal ou planta que tira mais dos outros do que lhes dá? Que acumula isso ou aquilo só para dominar os demais? Viver é harmonia. Cada ser à sua maneira e em seu ecossistema. Este é o exemplo que podemos observar da natureza. Sempre e em todos os lugares. Sem a interferência desequilibrante humana!

Fomos criados por amor e por prazer. A ser criadora nos deu leis bem objetivas, que, se respeitamos, nos permitem viver em equilíbrio. Conosco e com os demais seres, base da felicidade e do prazer. Se as desrespeitamos, criamos nossa infelicidade e nos prejudicamos. Nós podemos nos educar nesse sentido. Ou não, e nos deseducar.

Aliás, o perito em família dinamarquês Jesper Juul foi tema da série de artigos do semanário alemão Die Zeit intitulada “Quem pensa para o amanhã?”. Juul é muito procurado por pais e mestres por sua visão e metodologia de trabalho. Ele diz, por exemplo: “Educação consiste em tratar as crianças com respeito. Aí também se recebe respeito de volta”.

Outra: “Crianças precisam de pais que estão convencidos de que seus filhos são legais, assim como são. Que dizem sua opinião abertamente, talvez também sua discordância, mas que nunca perdem a confiança em seus filhos.” Ou: “Para o bem-estar de uma família é decisivo não as regras que se impõem, mas como a gente se trata mutuamente”.

Hoje, diz Juul, o poder do mais forte desapareceu nas famílias e aumentou, em contrapartida, o poder da insegurança. E nega-se a contrapor, para isso, a disciplina. “As crianças não são educadas por ordens ou castigos, mas por aquilo que os pais vivem e mostram. Como se tratam mutuamente, como resolvem conflitos e brigas. Isso é o que educa.”

Juul diz ainda, que do que ele crê saber, pouco aprendeu em institutos e faculdades, mas sim da vida. De inúmeros contatos com mães, pais e crianças. E que ele se alegra por finalmente poder aplicar com seu netinho, de dois anos e meio, o que ele vive aconselhando a outros. Pois com seu filho, na época, ainda era jovem demais e inexperiente.

Também tenho um netinho. Vai fazer três anos em agosto. Também estou tentando evitar, não só com ele, mas em tudo o que faço, os inúmeros erros que cometi como pai, por ser jovem e inexperiente. E assim, se cada geração reparar alguns erros cometidos pela geração anterior, vamos melhorando gradativamente nosso convívio, não é mesmo?

 

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