O Cancro de Ouro
Hoje comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia. Por ser um dia especial, que tal tomar um pouco do seu tempo para refletir sobre ele? Se quiser, me acompanhe… Era uma vez um balão. Lindo, cheio de seres e de muita vida. Visto de perto, parecia enorme. De longe, era minúsculo como um grão de areia. E bem frágil.
Dos muitos seres que viviam nele, houve um que passou a se desenvolver e a se espalhar por toda a sua superfície. E desses seres, havia um grupo que inventou um sistema de trocas, que, com o tempo, também passou a crescer. E cresceu tanto, que chegou a um ponto, no qual não havia mais reversão. E o balão estourou, matando a todos os seres.
O balão, no caso, é só uma metáfora, claro. Representa a terra. E você jamais pensaria que a terra é um balão, não é mesmo? Não iria confundir uma metáfora com a realidade. Mas… o que acontece quando alguém fala de “crescimento econômico”? Isso é algo real como a terra ou só uma metáfora, como a do balão? Uma economia pode, de fato, crescer?
Imagino que você diga que sim, estando de acordo com milhares de outras pessoas. Desde o presidente Lula, até os economistas mais ortodoxos. E viva o PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento! Isso é coisa de potência econômica mundial! Uma maravilha! Mas, e se “crescimento econômico” não for nada mais que uma simples metáfora? E aí?
Aí teríamos de dizer adeus à essa economia, por mais que Prêmios Nobel de Ciências Econômicas a defendam. Claro, porque assim como ninguém vai dizer que a terra é um balão, ninguém deveria falar de “crescimento econômico”. A não ser como figura de linguagem. Mas o que vemos é que se confunde realidade com metáfora. E isso é grave.
Crescimento económico é um mito. E muito perigoso, pois é mortal. Veja: crescer, como fenômeno biológico, é um processo natural que ocorre de acordo com determinadas regras. Na natura, por exemplo, não há crescimento ilimitado. Todo ser, quando atinge sua madureza, pára de crescer. Aí envelhece e morre. Nenhuma árvore cresce até a lua!
No câncer, ou cancro, é outra coisa. Nele, uma população de células cresce sem respeitar seus limites naturais, invadindo e destruindo tecidos e até órgãos adjacentes. Ao observar a obsessão do crescimento, como prega a economia capitalista, me ocorre uma outra metáfora. Essa sua fixação maníaca parece um câncer. Um cancro de ouro!
Veja: o corpo humano pára de crescer ali pelos 18 ou 20 anos. O que é ótimo, pois imagina se fôssemos crescer continuamente? Nossos órgãos iriam se esmagar reciprocamente, não poderíamos mais caminhar e morreriamos pelo nosso tamanho extra-grande. Além do nosso limite biológico ainda há muitas outras fronteiras naturais em nosso singelo e frágil mundo.
Muitos limites já quebramos de um jeito ou outro. Como pelos nossos meios de transporte e de comunicação. Viajamos acima da velocidade do som e rompemos as barreiras do espaço através das ondas de rádio, televisão e da internet. Transpor essas fronteiras e quebrar esses limites sempre tem um preço. E pagamos por eles. Às vezes até com a nossa vida.
Todo crescimento natural e sadio tem uma linha demarcatória. Algo cresce até um ponto e… pronto. Acabada essa fase, se entra na próxima, no período do definhamento. E este conclui com a morte. Isso é natural e universal. Nenhum ser nem sistema escapam dessa lei, a não ser que queiram correr o risco de se auto-mutilar, de se destruir ou se matar precocemente.
Falar em “crescimento econômico”, portanto, é bem mais que um “ledo engano”. É um logro terrível. E se economistas e políticos usam a metáfora errôneamente, por não saber, digamos, paciência. Errar é humano. Mas vendo o estado doentio de nosso meio ambiente, isso não é mais tolerável. E se alguém continuar a insistir no erro, já passa a ser diabólico.
Nos processos econômicos ou demográficos, o que se pode falar é de aumento. A população mundial, por exemplo, quintuplicou nos últimos 150 anos. A produção industrial aumentou 50 vezes. Ou seja, o volume produzido atualmente é 50 vezes maior do que há 150 anos. Agora faça o cálculo para ver qual é a relação de um aumento para o outro!
Imagine que uma pessoa tivesse uma calça ou uma saia há 150 anos. Hoje, com o aumento de tudo, ela teria10 calças ou saias! E se continuamos presos à doutrina do cancro de ouro, o número do Produto Interno Bruto poderá aumentar, o da população mundial também, a China poderá ser a maior potência econômica do mundo etc… Mas, e daí?
Aí a terra estará melhor? Com 9 bilhões de pessoas? E todas mais felizes também? Quando os Estados Unidos estiverem gastando um trilhão de dólares ao ano só para armamento, aí os norte-americanos estarão vivendo com mais paz? E se o número de obesos aumentar, a questão da fome aí estará definitivamente solucionada? – O que você acha?!
Atualmente já nem resolvemos mais o problema do lixo. Mas continuamos descartando a tudo e a todos. Milhões de pessoas sofrem por não terem água potável. Mas seguimos lavando nossos carros como se fossem bezerros de ouro. Há milhões de desempregados, e ainda achamos que o trabalho seria o principal e único sentido/castigo de nossa vida.
Lembra da natureza? Os organismos só se mantêm estáveis quando todas as suas partes se desenvolvem orientando-se para o todo. Numa árvore, raizes, tronco e copa têm de crescer e manter-se em equilíbrio. Se uma parte cresce anomalamente, a árvore morrerá. No corpo humano é idêntico. O crescer equilibrado e limitado é uma lei universal.
Hoje se fala muito em três tipos de ecologia: a interior, ou pessoal, a exterior, e a global. Na ecologia interior observamos a relação de nossas percepções, emoções e idéias com a nossa qualidade de vida pessoal. Na exterior, estudamos a relação dos seres entre si e com o seu meio. Na global, vemos a influência das duas anteriores na sua dimensão planetária.
Todas as três ecologias requerem a mesma atenção e prática cuidadosas: o sentimento de re‑ligação, de harmonização e de solidariedade com o todo. Eu devo viver em sintonia e em saúde comigo. Devo me entender e amar. Aí poderei viver em sintonia e ter uma relação sadia com os meus próximos, base de toda a convivência equilibrada, justa e pacífica.
Aliás, há um tipo de crescimento meio esquecido. É o crescer no saber e na conscientização das leis cósmicas. Leis que nos foram dadas por quem nos criou. Podemos chamá-lo de Javé, Deus, Alá ou Decritos, a Deusa Criadora de Todos os Seres. Seu nome não importa. O respeito por e a prática de suas leis é o que vale. Vale nossa saúde, nossa vida e futuro.
Sejamos uma célula sadia num órgão sadio. Conhecendo e respeitando nossos limites de crescimento. Pois quem os aceita, sem transgredi-los, os transpõe de maneira natural e harmônica. E não sejamos agentes patogênicos do cancro de ouro. Antes que a obsessão maníaca por PAC e outros “crescimentos” nos arrasem e nos exterminem totalmente.
