A Guerra pela Sobrevivência (1)
Hoje é uma segunda-feira bem normal. Nenhuma comemoração especial, nenhum evento extraordinário nesta data. Ontem foi o Dia do Índio. Amanhã será o Dia de Tiradentes. Dois acontecimentos marcantes na história do continente latino-americano e do Brasil. Os dois têm a ver com luta anti-colonialista e respeito à preservação dos povos indígenas. Os dois eventos têm a ver com luta pela sobrevivência. E apesar de parecer uma segunda-feira comum, não o é.
Hoje é mais um dia super-importante na nossa vida pessoal e coletiva, porque é mais um dia do qual dispomos para fazer algo pela nossa sobrevivência, ou não. E este é o grande dilema de nossa rotina, de nossa cotidianidade: de não percebermos qual é o valor de nossa vida. De não sabermos dar ao tempo um valor biológico, qualitativo. E de só vermos no tempo uma fator cronológico-financeiro de obter poder e capital com todos os meios possíveis e imagináveis.
Com isso, há muito que estamos cavando a nossa sepultura coletiva. Há muito que estamos armando a nossa hecatombe, com toda a “pompa e glória”! Só não vê, quem ainda não quer ver. Dias atrás, agências de notícias informavam que uma grave seca ameaça o “Jardim do Éden”, que teria ficado no atual Iraque, na região mesopotâmica, entre os rios Eufrates e Tigre. Há dois anos que a falta de chuva castiga grandes partes do Iraque, Síria e partes da Turquia. A quantia de chuva registrada nesse período foi de 70 a 60 vezes menor que nos anos anteriores.
Deve-se lembrar que foi nesta região que surgiu a escrita, a primeira civilização do mundo, a Suméria, e as leis escritas mais antigas, reunidas no Código de Hamurábi. Os povos locais já vivem há cinco mil anos neste Jardim das Delícias e suas formas de viver não se modificaram substancialmente nestes milênios. A globalização e a mudança planetária do clima, porém, não conhecem fronteiras físicas. E assim, o Paraíso Terrestre, com seus povos e culturas, está para desaparecer definitiva, impiedosa e irreversivelmente.
O governo iraquiano e as Nações Unidas anunciaram em Março passado um programa de ajuda à região no valor de 47 milhões de dólares. O próprio diretor do programa, o iraquiano Fadel el Subi, duvida contudo que as medidas resolvam algo se a seca continuar. Além disso, será preciso fazer um novo acerto sobre o uso dos recursos hídricos locais com os países da região, para que o Iraque possa dispor de mais água. Pretende-se também introduzir espécies de peixes mais adaptados à crescente salinização das águas. Resumindo: no Jardim do Éden começou a luta pela sobrevivência!
O semanário alemão Die Zeit, em sua edição de 26 de Março passado, publicou uma longa entrevista com Hans Joachim Schellnhuber, fundador e diretor do Instituto de Pesquisa Climática de Potsdam e membro do IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Seu título: “Às vezes eu poderia gritar”. Perguntado sobre como está a situação climática atual, respondeu: “Muitíssimo incômoda. No fundo, como se discutiu justamente agora na grande Conferência em Copenhague, todos os dados apontam para a mudança climática, para o fato de que a situação é ainda mais difícil do que se temia há anos. Muitos cenários dos piores casos (worst-case) são superados pela realidade”.
Mais adiante, perguntado se ele tem esperança de que ocorra uma metanóia (mudança radical de pensar) na política e sociedade, Schellnhuber diz: ” (…) Nós possuímos sem dúvida enormes possibilidades de mudar para a sustentabilidade. Tornei-me, porém, muito descrente, se ainda vamos conseguir isso a tempo de aproveitá-las. Cada vez mais ponho minha última esperança não na repentina compreensão do mundo político, mas numa bem diferente”. – Qual? – “Na esperança de que a comunidade científica tenha se enganado coletivamente na questão climática”.
Sobre as probabilidades dessa esperança, o perito comentou: “Muitos líderes políticos me perguntam isso frequentemente. Bem… a chance de que todo o sistema científico esteja equivocado é menor do que um por cento”. Para ele, um pequeno aumento da temperatura média global, como já se registra, representa um ecocídio. E tudo irá piorar com a “globalização das relações causais”: “As crescentes emissões de CO2 da China podem derrubar o clima da Amazônia, e o trânsito de carros da Europa podem causar o degelo do permafrost da Sibéria, e assim por diante”.
“Onde poderia estar o lado trágico de um climatólogo?”, pergunta o semanário. Schellnhuber: “Eu temo que em breve iremos passar da fase de minimizar o problema climático diretamente para a fase do horror. E aí vamos debater, se não devemos conduzir um tipo de “Star War” contra a mudança climática, ou seja, acionar uma geo-enginnereing maciça. Atualmente há pesquisadores honestos e responsáveis, que se ocupam com opções correspondentes: aporte de cargas de enxofre na estratosfera, adubagem maciça dos mares com ferro e muita coisa mais”.
Ele próprio gostaria de não sermos obrigados a nos confrontar com essa opção, mas perguntado quanto disso seria ficção científica, Schellnhuber foi bem claro: “Isso não é ficção científica. Já se trabalha na guerra contra o câmbio climático. É macabro, pois se trabalha nisso, e muito intensamente, há décadas, justamente em Los Álamos, ou seja, exatamente nos lugares de pesquisa científica, onde Edward Teller desenvolveu a bomba de hidrogénio”.
E por quê será que os norte-americanos estarão trabalhando na “guerra contra o clima”? Para evitar o ecocídio? Ou para salvar a humanidade? – Seguiremos abordando o tema!
