A Guerra pela Sobrevivência (2)

Arno Rochol
abril 21, 2009, 11:13 am

Amanhã, 22 de abril, é o Dia da Terra. Bom motivo para seguir comentando a entrevista que o semanário alemão Die Zeit publicou com Hans Joachim Schellnhuber, fundador e diretor do Instituto de Pesquisa Climática de Potsdam e membro do IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Logo após o título da matéria: “Às vezes eu poderia gritar”, o semanário indaga: “Poderá se chegar a preservar o mundo de uma catástrofe climática?” – Nesta colocação já se percebe o “detalhe”, importantíssimo, do qual muitos, como o próprio Die Zeit, ainda não se deram conta: numa catástrofe climática não está em jogo “o mundo”, nem “a terra”. O que está em jogo é a “nossa” vida! A nossa existência e a existência das futuras gerações!

Aliás, quando começou a Segunda Guerra Mundial? Quando os alemães invadiram a Polônia, em 1939, ou quando muitos alemães votaram no Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores (NSDAP) e Hitler foi nomeado chanceler do Reich, em janeiro de 1933? – Não há só uma data que defina ou explique um acontecimento, pois a história é dinâmica e multifacetada. Vários acontecimentos, aparentemente independentes, estão interligados e confluem num sentido, provocando novos fatos. Por isso a importância de se reconhecer que já estamos em plena Guerra pela Sobrevivência, porque todoss os fatos apontam neste sentido.

A questão que a gente se deve colocar, portanto, é: ainda podemos escapar da catástrofe climática que já se manifesta? E a minha resposta é: não! Porque a grande maioria dos responsáveis pela vida pública, empresários, milionários, líderes religiosos e de partidos, chefes de Estado, bem como a maioria de nós, eleitores e consumidores, não estamos fazendo o suficiente para evitar a catástrofe que se anuncia. E assim como antes da Segunda Guerra Mundial cada pessoa e grupo poderia ter feito algo para impedi-la, assim também cada um de nós pode fazer, aqui e agora, algo contra o ecocídio. E que ninguém se desculpe, depois, dizendo que nada ou pouco sabia a respeito de nossa hecatombe!

Voltando à entrevista do Die Zeit, nela conta-se que Schellnhuber, um dia, afirmou que menosprezava políticos por nada fazerem contra a ameaçadora mudança climática, apesar de saberem o que está acontecendo. Confrontado com a afirmação pelos entrevistadores, o climatologista disse que hoje empregaria uma outra formulação, mais diferenciada, entre políticos que tentam fazer algo e os egomaníacos. Entre os primeiros ele coloca Obama e a chanceler alemã Merkel e elogia o pacote de medidas para proteção ao clima aprovado pela União Europeia. “Não é perfeito, mas bem respeitável. Em matéria de redução das emissões dos gases de efeito estufa e sobretudo nas metas obrigatórias para a ampliação das energias renováveis é até o melhor que há em todo o mundo”.

Comentando o segundo inverno mais quente registrado recentemente na Índia e a extrema onda de calor que castigou a Austrália, Schellnhuber acha que o aquecimento global neste decênio poderá ser mais linear porque a humanidade, além dos gases de efeito estufa, está produzindo maciçamente “antídotos”, como partículas de enxofre, através de ineficientes usinas de carvão. Esta poluição ambiental “comum” só dura umas semanas, enquanto o CO2 pode influir no sistema climático por 5000 anos ou mais. ”Uma política de purificação do ar na Ásia provocaria, com isso, uma aceleração do aquecimento global. Temos, por assim dizer, a escolha entre a peste e a cólera”.

Com respeito às mais novas descobertas na área de mudança climática, o perito alemão cita três exemplos: “A emissão de CO2 está aumentando muito além do que os prognósticos mais drásticos temiam. Segundo exemplo: nosso instituto publicou há pouco uma pesquisa sobre a acidificação dos oceanos. Um excesso de CO2 da atmosfera contamina a água e com isso, simplificando, estamos transformando os oceanos em água gaseificada”. Ao que o Die Zeit contrapõe: “E o que há de ruim nisso?” Schellnhuber: “Nós calculamos que, se não limitarmos as emissões de gás estufa, a longo prazo surgirão grandes “zonas mortas” nos mares, entre 200 e 800 metros de profundidade, nas quais quase não existirá mais oxigênio”.

“As consequências dramáticas disso para a pesca internacional e para a alimentação mundial podem ser imaginadas”, diz o climatologista. E continua: “Terceiro exemplo: cientistas da Universidade de Victoria, Canadá, estão extremamente preocupados com a rapidez com que os solos permafrost estão degelando e liberando metano, um gás potentíssimo de efeito estufa. Vi imagens de pessoas na Sibéria cavando um buraco no chão, riscando um isqueiro e provocando uma chama grande. Nos solos permafrost calcula-se armazenado pelo menos um bilhão de toneladas de carbono. Isto é dez vezes mais do que a humanidade já liberou até agora com a queima de carvão, gás e petróleo.”

Perguntado como se sente, sentado em seu escritório, ao saber de tudo isso, o pesquisador respondeu: “Nós climatologistas já sabemos há muito que a porta de emergência da mudança climática só tem ainda um palmo de abertura. Em breve ela poderá se fechar completamente, como pela liberação dos gases metano de fontes terrestres e marítimas. E se nós provocarmos neste século um aquecimento global de cinco a seis graus, aí então não haverá mais uma civilização altamente desenvolvida como nós a conhecemos.”

Schellnhuber diz que não tem medo do futuro, mas se preocupa muito com seu filhinho, que completou há pouco um ano, para que ele também possa levar uma vida digna no futuro. Se ele tem uma chance? Sua resposta: “Clarividência não faz feliz. Pessimismo muito menos”. Ele se mostra compreensivo com uma sociedade que se preocupa atualmente mais com a crise econômica do que com a ambiental, mas considera um cinismo se a proteção ambiental for degradada a um segundo escalão: “Nós damos mais importância ao horrendo bem-estar de uma pequena elite econômica do que às chances de futuro de muitas gerações.”

Com respeito à velha distinção entre a grande Economia e a pequena Ecologia, o perito de 59 anos contrapõe: “Na verdade não existe esta diferença, muito menos nesta crise. Estou convencido que a Economia não poderá ser salva de maneira convencional. O período pós-guerra terminou politicamente com a queda do muro de Berlim em 1989; socioeconomicamente terminou com o crash atual. O desafio agora é programar a economia mundial de maneira totalmente nova. Nisso, os seguintes aspectos tecnológicos irão desempenhar um papel decisivo: eficiência energética drasticamente elevada; mobilidade à base de eletricidade, sistemas de alta-velocidade para o transporte ferroviário de carga, redes inteligentes para a integração de fontes de energia renováveis dispersas, energia solar do Saara, torres de energia combinadas com dessalinização, armazenamento de carbono, etc. etc. etc.”

Era isso, por hoje. Seguiremos com o tema!

Palavras-chave: Ecocídio, Guerra, Terra

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