Feliz Natal! Um desejo sincero
Qual é a pior coisa que pode nos acontecer? Há inúmeras, com certeza. Dentre elas, a morte prematura e uma doença dolorosa e prolongada. A lista dos infortúnios pode ser longa, como relativa. E todos são desagradáveis e horríveis porque contradizem a nossa essência de ser, que é a felicidade. É! Nós nascemos para ser felizes e gozar a vida. Inclusive durante a época natalina.
Hoje, contudo, o “feliz Natal” é uma expressão oca porque a ex-grande festa cristã há muito que se paganizou, tornando-se o auge do delírio consumista. Uma de suas causas é o mau hábito que temos de mentir e de nos enganar. E o cúmulo da apologia da hipocrisia se atinge no Natal, quando a máquina publicitária e o peso social nos “obrigam” a ser felizes ao nos presentear ou a cenar festivamente.
Em si, o Natal até que poderia continuar a ser o que realmente é: uma data comercial, que induz as pessoas a crer que seriam boas por se comportarem como boas consumidoras. O problema, contudo, é que a nossa época – a atual! - não comporta nem mais um só Natal! – Porquê? Porque todo Natal consumista-materialista é um golpe a mais na já debilitada saúde do nosso planeta.
Não acredita? Mas quem de nós ainda não sabe que a Terra está passando muito mal? “Imagens de satélite da Nasa mostram que, (…), o gelo sobre o Oceano Ártico derreteu-se mais depressa do que em qualquer outra época registrada. A perda total de gelo deste ano (2008) foi a segunda maior desde o início das observações por satélite. O recorde ocorreu em 2007.” (!)
Não acredita? Mas quem ainda não sabe que as mudanças climáticas já mataram milhares de pessoas e afetarão a vida de milhões? Ou já esquecemos as enchentes de Santa Catarina, as secas na Amazônia, os furacões e as ondas de calor? E quem ainda não se deu conta que as mudanças climáticas são provocadas também pelos nossos hábitos de vida e de consumo?
Quem ainda não notou que solo, água e ar são recursos importantíssimos para nossa vida? – E que são limitados? – E que, se contaminados ou destruídos, quem mais sairá perdendo somos nós mesmos? E que se a Terra já não agüenta mais com o consumo atual, imagine o que será, quando chineses e indianos quiserem ter uma “qualidade” de vida igual à “nossa”?!
Quem de nós ainda não viu que o “neo-liberalismo” continua desprezando os mais básicos e sagrados direitos de todos os seres, sobretudo o direito de viver dignamente de acordo com sua razão de ser? E quem ainda não viu que o sistema capitalista extorque a todos, permitindo lucros horrendos para uma minoria e socializando vergonhosamente os débitos desorbitantes?
Um exemplo? – Na noite para o último 19 de dezembro, autoridades norte-americanas prenderam Bernard L. Madoff, ex-diretor da Nasdaq e uma das pessoas mais influentes da Wall Street, “o coração do capitalismo”! Ele reconheceu ter enganado investidores durante anos com falsas promessas. Prejuízo: 50 bilhões de dólare$! E quem vai pagar o rombo? Os contribuintes, claro.
Quem de nós ainda não se deu conta que nossas principais instituições públicas, como partidos, igrejas, organizações internacionais e ONGs não estão evitando a destruição do nosso hábitat? Democracia? O povo nunca mandou em nada. Religiões do amor? Continuam benzendo armas e cooptando com o poder. A ONU e seus órgãos? Servem de decoração e para fazer turismo.
E para quê ir longe? O Brasil é um país com riquezas naturais, mas continua sendo um dos primeiros do mundo em desigualdade social: 1% dos mais ricos detém o mesmo valor que os 50% mais pobres. A renda de uma pessoa rica é 25 a 30 vezes maior do que a de uma pessoa pobre. Na Suécia, a diferença de renda entre ricos e pobres é de, no máximo, seis vezes.
“Acabar com a pobreza em país rico com grande proporção de pobres requer recursos financeiros irrisórios. Há no País 56,9 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza e 24,7 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza. Para se erradicar a extrema pobreza brasileira seria necessário não mais que 1% da renda do País”. (Fala Brasil, 30.10.04)
Feliz Natal? – Mas, para quem? Para quem quiser sair desta enrrascada até pode ser, pois há um jeito infalível e seguro de torná-lo feliz. Se você quer ser um deles, mude a sua maneira de pensar e de ver o mundo. Aceite a verdade dos fatos. Reconheça a realidade. Desfaça-se das falsas imagens, pessoais, grupais e coletivas, e as substitua por novas visões e ações.
As igrejas, por exemplo, precisam rever, com urgência, sua doutrina e missão. Precisam aceitar que o mundo não nos foi entregue por um deus para fazermos com ele o que bem queremos. Os cientistas precisam reconhecer que não somos os senhores da vida, nem da criação. E nós temos que aprender que o mundo só é nossa mátria passageira e nossa morada temporária.
A grande questão do oráculo de Delfos, “conhece-te a ti mesmo”, continua bem atual. Profetas que apontaram para as mazelas foram desprezados e mortos. Ninguém quis acreditar em Cassandra, e Tróia se deu mal. – Mas, e hoje? – Não temos tecnologias de ponta, máquinas poderosas, ciências e capital? – Ou será que realmente somos incapazes de com-viver bem?
Somos capazes, sim, mas para isso precisamos reconhecer, em primeiro lugar, que não somos os seres mais inteligentes da criação. Que somos simples seres em evolução. Com virtudes e defeitos. Precisamos voltar a ser humildes, a aceitar nossa realidade e a abominar a falsidade. Precisamos tirar as máscaras e estender os braços a todos, inclusive às plantas e aos animais.
“Se ficar, o bicho come, se correr, o bicho pega”? – É um trocadilho interessante, mais nada. Claro, porque não há bicho algum atrás de nós. O bicho, em questão, somos nós mesmos, ninguém mais! Ou seja, depende tão somente de nós fazer algo para acabar com a desgraça, como depende tão somente de nós continuar a perpetuar a injustiça e a infelicidade.
O mesmo trocadilho, em outras palavras, já usou Victor Hugo em “Os Miseráveis”: “Para uns, avançar era morrer, mas ninguém pensava em recuar; para outros, permanecer era morrer, mas ninguém pensava em fugir”. E a resposta/saída é a mesma: nós podemos, sim, recuar, se quisermos. Como também podemos escapar de todas pressões sociais injustas, se quisermos.
Inclusive do consumismo! Não só do natalino, mas, melhor ainda, do consumismo de todos os dias. Aliás, um jornalista do semanário alemão DIE ZEIT, na edição de 17.12.08, sob o título: “O Cotidiano em Crise”, escreveu trágico-ironicamente: “Amanhã precisaremos consumir mais do que hoje para que as pessoas não passem pior do que ontem”.
O bicho não pega, nem precisamos consumir mais, se não quisermos! O que precisamos é construir um mundo justo. Sem os “mais” gritantes e criminosos, nem os “menos” repugnantes e letais. Temos de desacelerar e travar o sistema capitalista, para não nos chocarmos de frente contra a parede da burrice ou cairmos no precipício do ecocídio. Se é que já não estamos… caindo.
Re-conheça que a Terra não comporta os hábitos consumistas atuais. Sejam eles brasileiros, norte-americanos ou europeus. E descubra que, em nosso mundo, tudo está interligado. A câmara digital, o celular ou o PC “made in China” são baratos porque resultaram da exploração da mão de obra chinesa. O artigo de luxo talvez da mão de obra barata indiana, etc.
A organização alemã WEED, World Economy, Ecology & Development, e a SACOM, Students and Scholars against Corporate Misbehaviour, de Hongkong, publicaram há pouco o informe: “O lado escuro do ciberespaço“. Nele delatam as péssimas condições de trabalho de empresas chinesas produtoras de componentes eletrônicos. Elas não respeitam nem os próprios direitos trabalhistas chineses!
Em épocas de alta produção, os operários migrantes trabalham até 70 horas por semana, vivem em albergues lotados, com péssimas condições de higiene, e recebem até 15% a menos que o salário mínimo garantido por lei. Este, de acordo com a região, vai de 200 a 257 Reais por mês. Com isso, nem mesmo na China se vive. E há 130 milhões de operários chineses migrantes!
É preciso reconhecer um problema para se poder solucioná-lo. Agora, talvez você já esteja reconhecendo melhor os problemas que mais nos afetam. E talvez já saiba também que ninguém escapa dos efeitos que nossos males causam à Terra: vivendo em mansões ou em malocas. De terno ou descamisado. Indo ao culto, ou não. Super-saturado, com comes e bebes, ou vivendo na míngua e morrendo de fome.
Feliz Natal? – Claro! Como não? Mas que seja, de fato, um novo natal! Que simbolize realmente o renascer para uma nova vida. De mudança de rumo e de hábitos. Pois assim poderemos, quem sabe juntos, minimizar um pouco os danos que causamos ao planeta e cujos efeitos dolorosamente sentimos. Lembre: somos, realmente, uma só família! E, sem uma ação coletiva, não vamos solucionar nada. Por isso:
Feliz Natal!
É o que o Grupo Gaia deseja a todos, do fundo do coração. Feliz por saber que você pode e vai mudar a sua realidade, já, neste Natal. Aqui e agora. Quem sabe sem presentes materiais, para que a máquina do consumo não nos triture ainda mais. E feliz por saber que você não vai mais esperar que os outros comecem a mudar ou a fazer algo que só você pode fazer.
