Ano Novo! Velha vida?
Não! Não deveríamos seguir por uma trilha quando sabemos que ela não nos conduz a um bom fim. E, no entanto, insistimos em segui-la. Por que será? Há vários motivos, dentre eles, o “espírito de rebanho”. Ou seja, o mau hábito de se achar que, se todos seguem o tal caminho, é porque deve ser o certo. E esse mau hábito tem a ver com a nossa maneira ainda antiquada de ver o mundo, de pensar e de atuar.
É que ainda não somos os seres racionais, que achamos ser. Muito menos os “homens sábios”, como a ciência nos denominou. Basta olharmos à nossa volta! Miséria, fome, exclusão social, alimentos contaminados, guerras, ditaduras, mudança climática, etc. E nós, pacientes, submissos e obedientes, acompanhamos a manada! Obecendo ao comando social das festas de calendário. Feliz ano novo!
Aliás, quem deveria estar feliz hoje, na passagem de 2008 para 2009, são os pais e defensores da doutrina neoliberal. Sim, porque em 2008 ela completou 70 anos e, neste período, mostrou que foi muito eficiente. Queres saber como foi? Tudo iniciou em agosto de 1938, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de filósofos e economistas decidiram mudar o mundo.
Naquela época, o socialismo e as ditaduras fascistas detinham o poder em vários países. Isso desagradou a 25 intelectuais. Reunidos em Paris, resolveram “reanimar” a velha teoria liberal, que havia caído em descrédito pelos efeitos sociais negativos da industrialização. Para isso precisavam de um novo nome para o “liberalismo” e havia duas sugestões: “neocapitalismo” e “liberalismo construtivo”. Nenhuma foi aceita.
O nome que ganhou foi: “neoliberalismo”. Para difundi-lo, criaram um centro de estudos para a “renovação do liberalismo”, e, em janeiro de 1939, fundaram a editora Cahier du Libéralisme. O grupo volta a se reunir em abril de 1947, na Suíça. Os destaques do grupo são John Maynard Keynes e Milton Friedman, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia em 1974 e em 1976, respectivamente.
O restante da história já conhecemos: em 1973, após o golpe contra Allende, o Chile torna-se o primeiro país a adotar a nova teoria econômica. Seguem-se Margaret Thatcher, na Grã-Bretanha, em 1979, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, em 1981. Os princípios da doutrina são bem claros: privatisar, desregular e cortar os custos sociais. Suas conseqüências também são fartamente conhecidas e sentidas.
Hoje, os neoliberais podem se “orgulhar” de terem conseguido acabar com a soberania dos Estados, criando um só regime global de poder, dominado pelo capital, e coordenado pelo Federal Reserve, Fed, o banco central americano. Crise financeira? Setecentos bilhões de dólares de ajuda aos culpados pelos rombos? Concentração de poder e riqueza nas mãos de poucos? – Pois é… Feliz Ano, velho!
Thatcher, ao assumir o governo britânico, prometeu “eliminar passo a passo o socialismo e devolver novamente o poder ao povo”. E o que aconteceu? As privatizações enriqueceram grupos já privilegiados e os trabalhadores tiveram que trabalhar mais para ganhar menos. Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Organização Mundial do Comércio passaram a gerar o destino da humanidade.
A Nova Economia e o Consenso de Washington, todavia, não evitaram o primeiro grande escândalo do neoliberalismo, em dezembro de 2001, com o caso Enron. Chegou-se a dizer até que era o “crime do século”! Mas, oh ingenuidade, a crise atual é bem pior: 990.000.000.000,00 $ – novecentos e noventa bilhões de dólares foram investidos em prédios e casas nos Estados Unidos, que agora estão vazios.
O fundo estatal chinês, China Investment Corporation (CIC), possui 200.000.000.000,00 $, duzentos bilhões de dólares só para fazer investimentos. 23.000.000.000.000,00 $, vinte e três trilhões de dólares é o “prejuízo” acumulado nas bolsas de ações internacionais! E o caloteiro-mor, Bernard Madoff, que “sumiu” com 50 bilhões de dólares, disse que ele pagava investidores com dinheiro que não exisita.
Quando o governo americano aprovou o pacote bilionário de ajuda, um jornal alemão citou o presidente Bush: “Eu quero ajudar os operários americanos que trabalham duro”. Em outro diário podia se ler: “Bush salva companhias automobilísticas dos Estados Unidos da bancarrota”. – Gozado, não? Será que esse dinheiro sairá mesmo da fortuna de Bush, ganha na guerra do Iraque, ou dos contribuintes americanos?
Ano Novo, velho clima! Claro, pois em 2009 vamos comemorar 30 anos de Conferência Mundial do Clima! A primeira foi realizada em Genebra, a 12 de fevereiro de 1979. A última, de número catorze, de 1º a 12 de dezembro, ocorrida em Poznań, Polônia, reuniu representantes de 190 países e terminou sem acordo algum, sem resolução alguma. Ou seja, foi mais um fracasso total!
Aliás, o ministro do Meio Ambiente do Peru, António Brack Eck, estreou na “caravana climática” anual, que leva milhareres de representantes governamentais, observadores, lobbyistas, e ambientalistas a passear pelo mundo. No final, ao comentar sua decepção, disse: “Se, em vez de ir a Poznań, cada ministro tivesse plantado duas árvores em seu país, o mundo, agora, seria melhor”.
Passeios turísticos anuais para discutir o clima mundial à custa de quem? Dos contribuintes, claro, e à custa das próximas vítimas de furacões, secas, enchentes e ondas de calor. Tudo porquê? Porque estamos em guerra conosco mesmos! Porque não nos amamos. E porque permitimos que a globalização neoliberal nos imponha a cobiça, a arrogância e a intolerância como nossos valores máximos.
Ano Novo? Pode ser! Mas não por comemorarmos uma data simbólica, de um calendário inventado por seres humanos. O nosso ano só será realmente novo, se mudarmos nossa cabeça, nossas atitudes, nossa maneira de encarar e de amar a vida. Esta mudança pode acontecer todos os dias do ano. E é desse tipo de ano novo que mais precisamos.
O calendário da Vida é diferente do nosso. A Vida, a que me refiro, é eterna e infinita, porque foi Ela que nos criou. Nós inventamos diferentes nomes para ela e criamos distintas maneiras de explicá-la. Está na hora de pararmos de brigar por nossas descrições e explicações e de mudarmos nossa relação com ela. Por isso, repense sua maneira de encarar a vida, já! Livremente. E antes que seja tarde demais.
Neste novo ano, feliz Vida nova!
