Biocapital, a saída oportuna

Arno Rochol
novembro 7, 2008, 6:24 pm

Foi lançada há pouco, na Alemanha, uma obra interessante de Andreas Weber, intitulada Biokapital. No subtítulo se lê: “As pazes entre economia, natureza e humanização”. Sua tese é: “pela primeira vez na história da modernidade comprova-se que só comportamentos que mantenham a natureza poderão permitir formas de economia a longo prazo”.

Não parece tão óbvio? Claro, pois sem a natureza não há processo econômico. Só pode haver com ela! E segue o autor: todos reconhecemos que há uma relação profunda entre crise ecológica, desemprego estrutural e um sentimento de falta de realização pessoal. Ou seja, mais e melhor não andam juntos e o crescimento econômico favorece cada vez menos pessoas.

Exemplos: 30 cadeias de supermercado controlam um terço do comércio mundial de alimentos. 350 pessoas detém a metade de toda a riqueza da terra. Além disso, até o bem-estar das pessoas que enriquecem cada vez mais não aumentou, pelo contrário. De 1950 para cá, a tendência para a depressão dos norte-americanos aumentou em 1.000 por cento!

Inquéritos feitos regularmente desde os anos 1950 provam que, hoje, as pessoas lá são significativamente menos felizes que há 50 anos. Em cálculos econômicos, se em lugar do BIP fosse usado um modelo que inclui a saúde da natureza e as possibilidades de realização de uma sociedade, aí, de 1950 para cá os norte-americanos ficaram até bem mais pobres.

Para Andreas Weber, “o domínio da economia sobre todas as demais necessidades não é só prejudicial, como falso. Nosso comportamento atual não é só economicamente injusto em relação a povos prejudicados e à natureza, mas deixa bem claro, que, o que nós fazemos é o resultado de uma ideologia ingênua”.

A revalorização da natureza irá desempenhar um papel decisivo em todos os desafios do futuro e o nosso sistema econômico iria mudar profundamente, se incluíssemos nos balanços econômicos o rendimento da bioesfera. Como: a diversidade das espécies com seus recursos psíquicos, medicinais e técnicos, e sua capacidade de transformar os dejetos da indústria.

A agricultura, que em várias partes concorre hoje com a natureza, também pode prestar uma contribuição decisiva para uma economia produtiva e, ao mesmo tempo, gerar mais bem-estar, mais satisfação e maior diversidade natural. Produtos orgânicos consomem menos energia, produzem menos CO2, evitam intermediários, aumentando assim os lucros em até 95%.

Esta nova visão também ajudaria os países e as regiões pobres, como comprovam projetos realizados, tendo por base uma economia ecológica. O autor relata algumas destas experiências positivas no Leste da Alemanha, região afetada por estagnação e pobreza. O seu segredo é que a economia ecológica redescobre a pessoa como um ser cultural e natural complexo.

O ser humano, segundo recentes descobertas da biologia, não é aquela peçazinha muda no combate existencial de partículas inanimadas, como a visão darwinística de mercado defende. A objetividade mecânica e a concorrência cega, como vemos, não resolvem nossos problemas. Somente uma visão holística do agir econômico poderá nos dar novos impulsos.

A biologia já está mudando seus paradigmas e redefinindo o que é um ser vivo, como ele se constitui, como a biosfera se interliga, o que é uma pessoa e qual sua relação com a natureza. A ciência da economia do ser vivo, a ecologia, percebe cada vez mais que a base para o sucesso da vida não é só eficiência e seleção, mas sobretudo auto-organização e cooperação.

A interrelação de todos os seres é cunhada por uma busca de harmonia e bem-estar. A nova biologia reconhece que a subjetividade e a beleza, os valores e a verdade usados no atingir ou no errar as metas da vida fazem parte inseparável do caráter da biosfera. A atual economia, construída em leis cegas, em seres máquinas e natureza ilimitada chegou ao fim.

Saúde, paz e satisfação interiores, vigor ecológico e uma economia justa, dirigida para o futuro, não são metas concorrentes, entre as quais se deve optar. Elas só podem ir lado a lado, pois o problema da vida, de todos os seres, é sempre agir dentro de uma certa polaridade, e de tentar viver em equilíbrio entre tendências à ordem e à liberdade.

Esse dinamismo da vida é a base da nova economia ecológica e ele nos convida a sermos modestos, realistas e a observar nossos limites. Somente esta “administração da casa” apaziguará o ser humano com a natureza e a biosfesra, proporcionando mais bem-estar neste nosso pequeno planeta em luta. Essa pode ser a nossa chance: o biocapital, o capital da vida!

Palavras-chave: Gruga.org

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