Sexo, Sangue e Sensacionalismo
Em um recente curso sobre “Periodismo en Épocas de Conflictos”, realizado para jornalistas bolivianos em Santa Cruz, entre vários temas, analisamos também o efeito que matérias violentas podem causar no público consumidor de mídia. E isso nos levou à discussão sobre a responsabilidade de jornalistas e dos donos dos meios na hora de veicular tais fatos.
Um participante, ao contrário dos demais, manifestou-se a favor de lançar ao ar as palavras de um ouvinte, que se referia intencional e negativamente sobre a tendência sexual de um importante político boliviano. Era um caso claro de sexismo homófobo. E o jornalista justificava a veiculação com o direito à liberdade de expressão que todo cidadão tem.
Os demais argumentavam que jornalistas e seus meios também têm de respeitar limites éticos e que, quando se trata do bem comum, devem praticar a auto-censura. Até aí o exemplo. Eu pessoalmente continuei a refletir sobre a questão, querendo saber que argumentos justificariam uma auto-censura, ou não, e porquê?
A primeira coisa que me ocorreu foi um diário popular alemão, “Bild”, que é o jornal de maior tiragem do país e da Europa. São cerca de 4 milhões de exemplares por dia! Sua linha editorial é sexo, sangue e sensacionalismo. Disso resulta automaticamente a velha pergunta: por que é que a maioria das pessoas se interessa tanto por esses “três esses”?
Sabe-se a resposta: há uma massa apagada, anônima, que leva uma vida monótona, sem pontos altos. E a “Bild” oferece justo boas doses do que ela mais procura: emoções! Seja através do sexo, da violência ou de fofocas sobre “estrelas e astros”. Isso, misturado com muito esporte e lazer, mais notícias e comentários tendenciosos, garante seu sucesso.
Sucesso de vendas é uma coisa, auto-censura em relação à veiculação de violência pela mídia, é outra. E o certo é que há, de fato, um aumento de casos violentos, como o ocorrido na Finlândia, em setembro passado, quando um estudante matou dez colegas e se suicidou. Foi o segundo caso, em menos de um ano, num país considerado “altamente desenvolvido”.
As autoridades finlandesas, na época, falaram de uma rede de potenciais “estudantes assassinos”, ligados entre si pela Internet. E apontaram para várias “coincidências” entre os dois jovens psicopatas. Dentre elas, a seguinte: os dois eram fascinados pelo massacre na Escola de Columbine, nos EUA, em 1999, e divulgaram vídeos ameaçadores no YouTube.
Depois do massacre, os finlandeses mostraram-se indignados com a existência do vídeo-game “Kindergarten Killer”, cujo “único” objetivo é matar o máximo de crianças possível num jardim-de-infância. O “jogo” é gratuito e pode ser acessado pela Internet. Este caso reacendeu a “surrada” discussão sobre o efeito de jogos violentos no cérebro dos adolescentes, etc.
Outro exemplo: um estudo feito pela Universidade Complutense de Madrid revelou que “as estações de televisão espanholas emitem uma média de um ato violento a cada três minutos ou 23,7 atos de violência por hora. E que, durante o período analisado, de 2000 a 2007, registaram-se 3.156 atos violentos, um aumento significativo em relação a 2000.
Na década de 70, ainda havia regiões no Canadá, nas quais não chegavam os sinais de televisão. Isso levou uma equipe de psicólogos-sociais, liderados por Tannis MacBeth Williams, a analisar a influência da televisão no comportamento dos habitantes de três comunidades, que possuíam características culturais e sócio-econômicas idênticas.
Um detalhe do estudo foi a diferença da entrada dos canais de televisão nas comunidades. Em uma havia sido há pouco, na outra há sete anos, e na terceira há muito mais tempo. O resultado surpreendeu: na comunidade mais recente, após dois anos de consumo de tevê, registraram-se três vezes mais casos violentos entre crianças e jovens do que antes.
Nos anos 80, os psicólogos Armin Schmidtke e Heinz Häffner descobriram os mesmos paralelos na Alemanha. Depois de um canal transmitir a série “Morte de um Aluno”, na qual ele se joga diante de um trem, o número de suicídios iguais aumentou em 170% no grupo etário do protagonista da série. E se provou que o fenômeno não foi esporádico.
O norte-americano Brandon Centerwall fez outros estudos e chegou à seguinte conclusão: se não houvesse televisão, nem os demais meios eletrônicos visuais, só nos Estados Unidos, por ano, haveria 10 mil assassinatos a menos, 70 mil estupros a menos e 700 mil casos de delitos violentos a menos. Por ano!
Ou seja, a influência dos meios de comunicação de massa, sobretudo dos visuais, no caso da propagação da violência e do aumento de casos violentos está mais do que provada. E não só no tipo de comportamento violento! Manfred Spitzer, diretor da Clínica Universitária para Psiquiatria de Ulm, na Alemanha, descreve outros perigos em seu livro:”Cuidado, tela!”
Após inúmeros estudos, Spitzer e sua equipe chegaram à seguinte conclusão: quanto mais cedo uma criança passa a ver televisão, quanto mais horas ficar sentada diante dos meios eletrônicos, tanto maior são as probabilidades dela tornar-se obesa, de sofrer de diabetes, ou de morrer por apoplexia, infarto cardíaco ou câncer pulmonar.
Além disso, provou-se que há relação entre atos violentos, graves distúrbios de aprendizado e chances de se tornar marginalizado, depressivo ou sentir medos irracionais. Aliás, em 1995, Dave Grossman já havia abordado o tema numa obra clássica da psiquiatria militar norte-americana: “On Killing“ – “Sobre o Fato de Matar, o Custo Psicológico de Aprender a Matar”.
Há inúmeros outros estudos e matérias a respeito, mostrando que há uma relação entre consumo de vídeo-games e de TV e o risco de jovens desenvolver comportamento violento ou até criminoso. O efeito de cenas e jogos violentos é ainda redobrado se as crianças e jovens vivem em ambientes familiares e sociais mais agressivos.
E agora? – Acho que no caso de um Jornalismo pela Paz, de um jornalista que deseja entender conflitos e reportar sobre eles, defendo uma postura ética de auto-censura, sim. Aliás, nós todos, jornalistas e consumidores da mídia, precisamos desenvolver, com urgência, um grande espírito crítico-sensitivo. Afinal, este espírito realmente nunca fez mal à ninguém.
Outros links interessantes pelo Dia dos Jornalistas pela Paz, em 27 de outubro
Por um jornalismo da Paz
Nasce Rede de Jornalistas pela Paz
A associação “Repórteres da Esperança” criou um prémio para estimular um jornalismo mais “positivo”. O jornalismo como fonte de esperança.
16° Encontro da Nova Consciência: Jornalismo e cultura de paz
Por um jornalismo que promova os direitos humanos
Em inglês:
TRANSCEND INTERNATIONAL: A NETWORK FOR PEACE AND DEVELOPMENT
Peace Journalism – How to Do It?
