Sexo, Sangue e Sensacionalismo

Arno Rochol
outubro 25, 2008, 2:59 am
Pelo Dia dos Jornalistas pela Paz, neste 27 de outubro

Em um recente curso sobre “Periodismo en Épocas de Conflictos”, realizado para jornalistas bolivianos em Santa Cruz, entre vários temas, analisamos também o efeito que matérias violentas podem causar no público consumidor de mídia. E isso nos levou à discussão sobre a responsabilidade de jornalistas e dos donos dos meios na hora de veicular tais fatos.

Um participante, ao contrário dos demais, manifestou-se a favor de lançar ao ar as palavras de um ouvinte, que se referia intencional e negativamente sobre a tendência sexual de um importante político boliviano. Era um caso claro de sexismo homófobo. E o jornalista justificava a veiculação com o direito à liberdade de expressão que todo cidadão tem.

Os demais argumentavam que jornalistas e seus meios também têm de respeitar limites éticos e que, quando se trata do bem comum, devem praticar a auto-censura. Até aí o exemplo. Eu pessoalmente continuei a refletir sobre a questão, querendo saber que argumentos justificariam uma auto-censura, ou não, e porquê?

A primeira coisa que me ocorreu foi um diário popular alemão, “Bild”, que é o jornal de maior tiragem do país e da Europa. São cerca de 4 milhões de exemplares por dia! Sua linha editorial é sexo, sangue e sensacionalismo. Disso resulta automaticamente a velha pergunta: por que é que a maioria das pessoas se interessa tanto por esses “três esses”?

Sabe-se a resposta: há uma massa apagada, anônima, que leva uma vida monótona, sem pontos altos. E a “Bild” oferece justo boas doses do que ela mais procura: emoções! Seja através do sexo, da violência ou de fofocas sobre “estrelas e astros”. Isso, misturado com muito esporte e lazer, mais notícias e comentários tendenciosos, garante seu sucesso.

Sucesso de vendas é uma coisa, auto-censura em relação à veiculação de violência pela mídia, é outra. E o certo é que há, de fato, um aumento de casos violentos, como o ocorrido na Finlândia, em setembro passado, quando um estudante matou dez colegas e se suicidou. Foi o segundo caso, em menos de um ano, num país considerado “altamente desenvolvido”.

As autoridades finlandesas, na época, falaram de uma rede de potenciais “estudantes assassinos”, ligados entre si pela Internet. E apontaram para várias “coincidências” entre os dois jovens psicopatas. Dentre elas, a seguinte: os dois eram fascinados pelo massacre na Escola de Columbine, nos EUA, em 1999, e divulgaram vídeos ameaçadores no YouTube.

Depois do massacre, os finlandeses mostraram-se indignados com a existência do vídeo-game “Kindergarten Killer”, cujo “único” objetivo é matar o máximo de crianças possível num jardim-de-infância. O “jogo” é gratuito e pode ser acessado pela Internet. Este caso reacendeu a “surrada” discussão sobre o efeito de jogos violentos no cérebro dos adolescentes, etc.

Outro exemplo: um estudo feito pela Universidade Complutense de Madrid revelou que “as estações de televisão espanholas emitem uma média de um ato violento a cada três minutos ou 23,7 atos de violência por hora. E que, durante o período analisado, de 2000 a 2007, registaram-se 3.156 atos violentos, um aumento significativo em relação a 2000.

Na década de 70, ainda havia regiões no Canadá, nas quais não chegavam os sinais de televisão. Isso levou uma equipe de psicólogos-sociais, liderados por Tannis MacBeth Williams, a analisar a influência da televisão no comportamento dos habitantes de três comunidades, que possuíam características culturais e sócio-econômicas idênticas.

Um detalhe do estudo foi a diferença da entrada dos canais de televisão nas comunidades. Em uma havia sido há pouco, na outra há sete anos, e na terceira há muito mais tempo. O resultado surpreendeu: na comunidade mais recente, após dois anos de consumo de tevê, registraram-se três vezes mais casos violentos entre crianças e jovens do que antes.

Nos anos 80, os psicólogos Armin Schmidtke e Heinz Häffner descobriram os mesmos paralelos na Alemanha. Depois de um canal transmitir a série “Morte de um Aluno”, na qual ele se joga diante de um trem, o número de suicídios iguais aumentou em 170% no grupo etário do protagonista da série. E se provou que o fenômeno não foi esporádico.

O norte-americano Brandon Centerwall fez outros estudos e chegou à seguinte conclusão: se não houvesse televisão, nem os demais meios eletrônicos visuais, só nos Estados Unidos, por ano, haveria 10 mil assassinatos a menos, 70 mil estupros a menos e 700 mil casos de delitos violentos a menos. Por ano!

Ou seja, a influência dos meios de comunicação de massa, sobretudo dos visuais, no caso da propagação da violência e do aumento de casos violentos está mais do que provada. E não só no tipo de comportamento violento! Manfred Spitzer, diretor da Clínica Universitária para Psiquiatria de Ulm, na Alemanha, descreve outros perigos em seu livro:”Cuidado, tela!”

Após inúmeros estudos, Spitzer e sua equipe chegaram à seguinte conclusão: quanto mais cedo uma criança passa a ver televisão, quanto mais horas ficar sentada diante dos meios eletrônicos, tanto maior são as probabilidades dela tornar-se obesa, de sofrer de diabetes, ou de morrer por apoplexia, infarto cardíaco ou câncer pulmonar.

Além disso, provou-se que há relação entre atos violentos, graves distúrbios de aprendizado e chances de se tornar marginalizado, depressivo ou sentir medos irracionais. Aliás, em 1995, Dave Grossman já havia abordado o tema numa obra clássica da psiquiatria militar norte-americana: On Killing – “Sobre o Fato de Matar, o Custo Psicológico de Aprender a Matar”.

Há inúmeros outros estudos e matérias a respeito, mostrando que há uma relação entre consumo de vídeo-games e de TV e o risco de jovens desenvolver comportamento violento ou até criminoso. O efeito de cenas e jogos violentos é ainda redobrado se as crianças e jovens vivem em ambientes familiares e sociais mais agressivos.

E agora? – Acho que no caso de um Jornalismo pela Paz, de um jornalista que deseja entender conflitos e reportar sobre eles, defendo uma postura ética de auto-censura, sim. Aliás, nós todos, jornalistas e consumidores da mídia, precisamos desenvolver, com urgência, um grande espírito crítico-sensitivo. Afinal, este espírito realmente nunca fez mal à ninguém.

Outros links interessantes pelo Dia dos Jornalistas pela Paz, em 27 de outubro

Por um jornalismo da Paz

Nasce Rede de Jornalistas pela Paz

A associação “Repórteres da Esperança” criou um prémio para estimular um jornalismo mais “positivo”. O jornalismo como fonte de esperança.

16° Encontro da Nova Consciência: Jornalismo e cultura de paz

Por um jornalismo que promova os direitos humanos

Em inglês:

TRANSCEND INTERNATIONAL: A NETWORK FOR PEACE AND DEVELOPMENT

Peace Journalism – How to Do It?

Peace Journalism Manual

 

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