Ganância e Impunidade
O semanário alemão Die Zeit, nº 39, de 25.09.08, saiu com a manchete: “Civilizai o capitalismo”. Se não fosse trágico até que se poderia rir. Civilizar, segundo o Aurelião, significa: “3.Dar cultura ou refinamento a; (…) (4); tornar mais alto o grau de desenvolvimento socioeconômico, político, cultural e tecnológico de (uma sociedade).
Mais refinado? E a situação mundial? E o capitalismo selvagem? Seus “pais” não são os banqueiros, especuladores e multinacionais? Mas ainda há bárbaros piores, como os gerentes dos “fundos de proteção”, os hedge funds. Aliás, o autor do “Dicionário da Crise”, da Veja de 1º.10.08, escreveu a respeito: “O nome é quase uma ironia…”!
Quase, não! É uma tremenda duma ironia. Num dossiê de 31.07.08, o semanário alemão Die Zeit, descreve quem são os especuladores, como agem e quanto faturam. Como num jogo de pôquer, eles apostam com o capital de outros. Foram eles que apostaram na quebra do mercado imobiliário norte-americano. E ganharam. Bilhões!
Agora, os contribuintes de várias partes do mundo têm de pagar o rombo. Na Alemanha, para “salvar um banco”, os contribuintes terão de pagar 27 bilhões de euros. Você sabe quanto foi o maior ganho até hoje de um especulador de hedges? 15 bilhões de dólares! – Quanto ele levou? 3,7 bilhões! – Seu nome? – John Paulson.
Ele é de Nova Yorque, tem 52 anos, e é um dos chamados Master of the Universe, mestre do universo! No final do ano passado, só a firma dele gerenciava 30 bilhões de dólares. Aliás, Paulson começou seu fundo em 1994, com dois milhões de dólares e três empregados. Calcula-se que hoje haja 10 mil fundos de “proteção” no mundo.
Mas eles estão “protegendo” o quê de quem? – Óbvio, não? O capital resultante da venda de recursos naturais e do trabalho de bilhões de pessoas. Os recursos naturais, como gás e petróleo, poderiam ser considerados de todos. O trabalho, como um serviço prestado à sociedade. E aí, seria preciso proteger a quem, mesmo?
Os fundos de proteção controlam, hoje, segundo o Die Zeit, dois trilhões de dólares e funcionam assim: Eles tomam dinheiro emprestado de bancos e grandes empresas e o “investem” em derivativos, ações que dependem do preço de outros produtos, como hipotecas, e em futures, apostas feitas em cima do preço do petróleo, trigo etc.
O dinheiro que gerem, portanto, não é deles. Como as apostas não são feitas nas bolsas de valores, não possuem, por isso, mecanismo algum de controle. E por serem “apostas” obscuras, complexas, ninguém sabe, exatamente, onde está o dinheiro, nem quem ganhou quanto, etc. Ou seja, controle político-fiscal? – Nada!
Os hedge funds já provocaram a queda do maior banco de investimentos, o Bear Stearns, no final de 2007, destruindo 1,6 bilhões de dólares. Também graças ao Mestre do Universo John Paulson! Ele e os outros Mestres ganham dois por cento do dinheiro que os investidores lhes dão para apostar. Mais uns 20% a 50% dos ganhos!
Paulson já tem garantido um salário de 560 milhões de dólares no ano que vem só por sua presença na firma. Mais os ganhos das especulações! E enquanto se congelam os salários nos EEUU e na Europa, os 25 gerentes de fundos Hedges de maior sucesso do mundo ganham hoje 18 vezes mais do que há cinco anos.
O maior centro dos apostadores é Nova Iorque e arredores. Mas, segundo o Die Zeit, em nenhum outro lugar pode-se observar melhor sua incrível multiplicação como em Greenwich, a 37 minutos de trem de Manhattan. Só ali se fixaram 100 fundos protetores, que administram uma décima parte do capital de hedges de todo mundo.
Bem, e por quê isso tudo acontece em plena luz do dia, com todos os recursos que dispomos? Seria fácil responder, acusando os políticos, não? – Mas… e nós? O que fazemos nós? O politólogo norte-americano Benjamin Barber acha, por exemplo, que a principal causa do mal está na „infantilização do cliente e do consumidor“.
Esta é impulsionada por uma economia consumista desvairada para satisfazer necessidades artificiais. Movidos por uma gigantesca indústria de publicidade, os consumidores caçam, como crianças, a bolha de sabão da felicidade do shopping e perdem nisso seu papel de cidadãos democráticos. Opinião de Benjamin Barber.
A respeito, num outro artigo de um semanário Die Zeit, Julia Kussius, pergunta se o capitalismo é um assassino da democracia. E deixa dois papas brigarem a respeito. Um, Michael Mandelbaum, professor da Universidade Johns-Hopkins, diz que o mercado livre cria as condições básicas para surgir o estado público livre.
Robert Reich, ao contrário, ex-ministro do Trabalho de Bill Clinton, vê no capitalismo um perigo de morte para a democracia, porque a economia está ocupando, cada vez mais, espaços políticos. – E agora? – Julgue você, o que mais pode corresponder à realidade. Sobretudo na véspera das eleições municipais.
