Aulas de Felicidade

Arno Rochol
setembro 20, 2008, 5:03 pm

Você poderá não acreditar, mas é verdade! No passado ano letivo alemão, alunos de uma escola de Heidelberg tiveram uma matéria inovadora: felicidade! A meta de aprendizado é promover o bem-estar psíquico e físico dos formandos. Nas próximas linhas resumirei uma matéria que saiu a respeito na revista Gehirn & Geist, Cérebro & Espírito, nº 9/2008.

Ernst Fritz-Schubert, diretor da escola, é o autor do projeto revolucionário. Nele, os alunos têm aulas do tipo “alegria de viver” ou “a felicidade do momento”, nas quais aprendem a ser pessoas sadias e satisfeitas. A partir do novo ano letivo, eles poderão até escolher a matéria “felicidade” como prova de “abitur”, o exame final do curso secundário alemão.

A matéria é dada em dois anos e se divide em cinco temas; no primeiro ano são: alegria de viver, alegria no próprio rendimento, alimentação e bem-estar físico, o corpo em movimento, o corpo como meio de expressão. No segundo ano são: bem-estar psíquico, a felicidade do momento, a aventura do dia-a-dia, cultura e técnicas culturais, responsabilidade social.

Entrevistado pela revista, Fritz-Schubert diz que, ao definir o conteúdo da matéria, não se orientou por possíveis carências dos alunos, mas em como poderia ajudá-los a criar reservas psíquicas e a armar-se para enfrentar problemas. Ou seja, a matéria quer transmitir conhecimentos e habilidades aos alunos para assegurarem sua saúde física e psíquica.

A escola, com isso, fecha uma lacuna deixada por redes sociais faltosas, como algumas famílias, que hoje não conseguem mais transmitir os ensinamentos necessários para se viver satisfeito. “Competência de vida e alegria de viver”, diz o diretor do colégio, “nunca se aprende cedo demais. É imprescindível acoplar a escola a este processo”.

Ernst Fritz-Schubert inspirou-se na salutogênese, de Aaron Antonovsky. Ele defende que, quando alguém crê que sua vida tem sentido, quando pode analisar e resolver problemas, aí tem melhores condições de sentir estresse positivo, o eustresse. Um requisito importante para isso, segundo Antonovsky, é dispor de uma personalidade integral básica estável.

(Salutogênese é o estudo das condições necessárias para se ter e desenvolver saúde. É o oposto de patogênese, o estudo dos mecanismos pelos quais se desenvolvem as doenças. Eustresse, ou estresse positivo, é um desafio que aumenta o rendimento. O contrário é o distresse, o estresse negativo, que nos sobrecarrega e, se perdurar, prejudica a saúde.)

A principal meta de aprendizado da nova matéria é reforçar a personalidade integral dos alunos e com isso prepará-la para uma vida com sentido, o de se ser feliz. Para dotá-los de uma serenidade alegre, base para o viver feliz. A atual pesquisa da resiliência mostra que as crianças e os jovens precisam dessas habilidades sobretudo para superar crises.

(Resiliência é um termo da física que se passou a usar, como neologismo, na psicologia. Ela se refere à capacidade de uma pessoa ou de um grupo para resolver o estresse e as crises sem danos. Diz-se que alguém ou um grupo tem resiliência adecuada, ou boa, quando possui força de resistência psíquica para enfrentar e solucionar situações críticas.)

Foi provado empiricamente que uma característica de uma personalidade estável é o prazer de viver. E isso, segundo Ernst Fritz-Schubert, pode ser aprendido. Para ele, quem pratica a atenção, por exemplo, percebe o seu meio e vive de maneira mais consciente. A atenção, no caso, é uma atitude de vida baseada em uma prática meditativa da tradição budista.

Uma das metas da meditação budista é permitir que se aprenda a viver no aqui e no agora. Ou seja, de se perceber e aceitar seus sentimentos, pensamentos e ações como eles são. Sem os qualificar e muito menos sem os negar. É uma habilidade que nos permite viver o instante em sua plenitude, de maneira holística e integral.

Hoje, quase todos só buscam satisfazer suas necessidades materiais. Mas também há outros fatores, não menos importantes, que são igualmente decisivos para o nosso bem-estar. Como os valores ideais. Deles fazem parte, entre outros, o relacionamento, o reconhecimento de que a vida tem um sentido e a descoberta de qual é este sentido.

A satisfação das necessidades ideais acontece quando alguém mantém relações sociais sadias, quando encontra um/a companheiro/a e faz uma tarefa que o/a realize, na qual vê um sentido. Em termos de resiliência, aí se diz que alguém possui a convicção de ter o próprio destino sob controle. E a isso se chama de “ter o sentido da auto-eficiência”.

Voltando às aulas de felicidade, Ernst Fritz-Schubert diz na entrevista que a maior alegria dele foi ter notado que os alunos ganharam mais auto-confiança e que aumentou o seu sentido de coletividade. Eles disseram, por exemplo, que a partir do aprendido, se atreveram mais a fazer coisas que os demais alunos não achavam bom.

Perguntado como definia um bom rendimento na matéria “felicidade”, respondeu: “Nós não avaliamos, claro, em que medida a satisfação de viver aumentou, mas com que intensidade os alunos se confrontaram com os conteúdos, professores e demais colegas”. Mas, uma tabela no artigo prova que, também numericamente, a avaliação dos alunos foi muito boa.

Weblinks: www.willy-hellpach-schule.de/

http://worlddatabaseofhappiness.eur.nl : cerca de 10.000 estudos científicos sobre felicidade e contentamento (satisfação), reunidos pelo sociólogo holandês Ruut Vennhoven

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