Aulas de falsidade
Dia 5 de outubro é dia de eleições municipais, todo mundo no Brasil sabe. Eleger significa escolher. Assim sendo, eleição também é um ato que se faz diariamente. Desde cedo, quando se pode escolher entre ficar na cama ou levantar, até em coisas mais importantes, como entre ir estudar e trabalhar para o bem coletivo, ou não.
Todo dia, portanto, é dia de eleição, só que o domingo será um dia especial, pois vamos escolher quem irá dirigir a nossa cidade. Vamos eleger quem poderá conduzir nossa vida pública municipal da melhor maneira. Para o bem de todos, claro! Mas, quantos eleitores sabem escolher com responsabilidade, pensando na coletividade?
Um livro lançado no mercado alemão chamou-me a atenção. É Der Macht-Code, O Código do Poder. de Reiner Neumann e Alexander Ross. Seu subtítulo é: as regras da manipulação. O livro mostra quem manipula e como, e revela os truques e as estratégias mais empregados para influenciar o comportamento das pessoas.
Lembram das “aulas de felicidade”? Pois o livro O Código do Poder é bem o contrário! São verdadeiras “aulas de falsidade”. Sim, porque nele não se vendem valores relevantes para o bem-estar da coletividade, mas “truques” e “lições” de como melhor enganar os outros. E no livro são apresentados vários exemplos e “normas”.
Tudo para quê? Para nos mostrar como é a realidade ou como deve ser? Claro que não, pois senão já teríamos mudado muitas coisas! A habilidade deles é usada só para nos vender imagens bonitinhas de uma realidade falsa. Ou seja, para nos enganar de que estariam fazendo algo de bom e nós, assim, ficarmos quietinhos.
As regras de manipulação, tão em moda, são, portanto, legítimas aulas de falsidade! Elas são praticadas por políticos, religiosos, doutores, diretores, empresários e por pseudo-jornalistas também, claro! E assim repetimos coisas e agimos como os nossos manipuladores nos ensinam e como eles querem e esperam que ajamos.
Exemplos? Diante de um problema, as pessoas têm um “complexo de desconfiança” contra soluções complexas. Elas preferem respostas mais simples e compreensíveis à primeira vista. Quem promete soluções simplistas, mesmo sendo falsas ou inúteis, tem mais chances de ser ouvido. – “Ninguém gosta de coisas complicadas”!
A realidade, porém, como sabemos, não é “branca” ou “preta”, nem “boa” ou “ruim”. Há uma gama de perspectivas e de possibilidades. Só que para se chegar a elas, é preciso ter visão crítica, paciência e disciplina. E qual político vai dizer isso a seus eleitores? Qual jornalista a seu público? Qual pastor ao seu “rebanho”? – Mais?
O “paradoxo da impressão” faz com que muita gente pense que pessoas bonitas, e jovens(!), seriam mais inteligentes que feias, e velhas. A maioria liga beleza externa com inteligência, com qualidades interiores. Acha-se que um corpo “musculoso” seria mais saudável que um corpo “normal”. A primeira impressão é a mais forte.
Cuidado! As aparências, como se sabe, podem enganar. Há lobos em peles de cordeiro, pedófilos vestidos de batina, engravatados com péssima educação. Há políticos que dizem fazer tudo pelo povo e… você já deve conhecer a resposta, não é mesmo? Por isso, não cáia na tentação de julgar alguém só pela aparência dela.
Ainda há inúmeras outras “regras” abordadas no livro, usadas para nos enganar ou iludir. Vou citar algumas resumidamente: o “truque com os números”. Políticos e economistas gostam de usá-lo para mostrar sua “grande” capacidade de gerir a vida pública ou seus negócios. Mas… números são manipuláveis e em geral enganosos.
O “fator lêmure”. Diz-se que esses bichos africanos agem muito em grupo, praticando, inclusive, suicídios coletivos. Muitos seres humanos fazem o mesmo, segundo a ilógica de que, onde vai a maioria, tem que estar certo. Muitos demagogos gostam de usar este recurso: “se todo mundo faz assim, você também tem que agir assim!”
O “fator alta personalidade”, de acordo com o princípio “mais vale a-parecer do que ser”! E todos passam a se orientar pelos “astros”. Não do firmamento, como se fazia antigamente! Mas pelas “estrelas” do cinema, da música, das ciências e até das religiões. Os “astros” parecem tão lindos, falam bonitinho e dão “aquele show”…
E vendem a sua imagem por milhões! Quem paga? Você, eu! Quê preço? Ora… publicidade é uma coisa cara, e quem paga é o consumidor. Mas, o problema não é só o preço financeiro, agregado nos produtos, mas também o prejuízo moral que a gente leva por se deixar iludir por “personalidades” que, de “grande”, pouca coisa são.
E segue por aí afora. São 18 regras de manipulação, que “grandes” gerentes, pastores, empresários, banqueiros e inclusive políticos aprendem, para bem manipular a gente. Seja como consumidor, crente, empregado e até como eleitor! Aulas de falsidade para podermos suportar a vida num mundo de mentira, irreal.
Você não imagina os termos que os “professores de ilusão” usam para “domar” os seus alunos. No mais perfeito idioma neoliberal globalizado, fala-se de “team-player”, de “ego-shooter” e de se posicionar a sua “brand”. – É! – Você tem que “posicionar” a sua “marca” para se vender, ou ser vendido e melhor usar a mídia em seu favor.
Esses caras não são mais pessoas, não. São marcas! Não precisam se conscientizar politicamente, nem ser cidadãos de um bairro ou de uma cidade. Muito menos de um país. Eles seriam “cidadãos do mundo”. De qual? Claro! Do mundo do dinheiro! Das finanças enganosas e injustas. Vender a sua marca é preciso! – Ser feliz e autêntico? O que é isso?
